LUIZ GERALDO MAZZA
Síndrome liberticida
Estamos vivendo um momento bom da democracia e justamente porque ela vai se construindo em meio a deformações como a do grevismo policial (contradição em termos, para quem porta as armas da República) e aos jogos de cena como a do corte em mais de R$ 50 bi do orçamento. Nunca tivemos num só governo tanta denúncia e também jamais vimos, na história brasileira, tantos e seguidos descartes ministeriais e cujo ciclo, pelo jeito, não se esgotou.
Em sessões memoráveis o STF garantiu o funcionamento do Conselho Nacional de Justiça como instrumento de controle externo, e agora consolidou a questão do ficha-suja para vigorar ainda nas eleições municipais. Mas em meio ao que é sensato e legal tivemos também as tais greves inadmissíveis, porque com militares ela é essencialmente motim.
Infelizmente os bons posicionamentos do Judiciário e do Congresso com o processamento exemplar dos mensaleiros encontram no radicalismo sindical chapa branca um contraponto a tanta evolução institucional. O pior é que se alastrou a noção de que tal arregimentação não agride o Estado de Direito, prova de que teremos que passar por outros dissabores até consolidarmos o regime. Devemos ter cautela com as reações a que seremos obrigados por transbordamentos intoleráveis. De libertários nada têm, mas de liberticidas, muito.
Um mau sinal
O governo Beto Richa está com as finanças em crise. O próprio secretário de Fazenda, Luiz Carlos Hauly, até para inibir as ameaças de greve, anunciou que os gastos com pessoal ultrapassaram há muito o nível prudencial da Lei de Responsabilidade com 62,5% do orçamento. De outro lado se percebe o esforço em aumentar taxas, como se deu anteontem, com a Sanepar, numa paulada só: 16,5%.
Isso aí vem depois, é claro, de um longo período de tarifas deprimidas por ordem do governo anterior, o que irritava os conselheiros da empresa que sabiam inútil mostrar o caráter suicida da orientação. E chega também depois do tarifaço do Detran, sujeito a revisão no Judiciário.
Beto Richa faz leituras diferentes de Maquiavel: na opção entre ser temido e amado, ele prefere essa, daí facilitar a arregimentação obreira em torno de salários impossíveis. Maquiavel achava, como Requião, que ser temido é melhor, tanto que as defasagens reclamadas agora não o foram quando governava e esses mesmos líderes, hoje falastrões, se calavam em silêncio obsequioso. No jeitão de Beto sentiram a ''bandeira'' para a onda que aí está.
Num outro capítulo de ''O Príncipe'', Maquiavel sugere que o bem se dá aos poucos, em doses homeopáticas, e o mal numa paulada só. Ney Braga fez uma dessa quando governador eleito: botou na rua 15 mil servidores e depois recuperou aos poucos uns 5 mil. Beto faz isso com as tarifas: enquanto Requião as deprimia, também erradamente, ele as solta como um foguete quando poderia aplicá-las em doses homeopáticas. Só não fez isso com as tarifas de ônibus quando prefeito porque terminaria sua carreira e a do sucessor, como se dará agora quando a passagem deveria saltar para R$ 2,80.
De outro lado o governo faz renúncia fiscal para facilitar investimentos e promete cortar impostos para que essas inversões se deem no interior. Se não houver pressão fiscal a nave soçobra.





