O neo entrudo
O êxito, embora as ocorrências da semana passada, do pré-carnaval de Curitiba fez lembrar que no passado distante precedia o ritual de Momo justamentre o entrudo, manifestação grosseira trazida pelos portugueses e que provocavam batalhas de rua, não de confete e serpentina mas de um verdadeiro pastelão com os participantes jogando água, farinha de trigo, uns nos outros.
Dizem moradores antigos da cidade que alguns se postavam com uma tina de água suja no alto dos prédios e se divertiam em lançá-la sobre os transeuntes. Alguns desses aspectos grosseiros persistiram por exemplo no uso do lança-perfume para atingir os olhos dos outros o que obrigava a quem se dispusesse participar de eventos em ruas e clubes o uso de óculos protetores. Com o tempo houve outra ''evolução'': a de cheirar o produto ou lançá-lo na bebida o que, pelas consequências de desmaios e acidentes, acabou proibido. Lamentável de qualquer modo porque fazia parte indispensável do decor, aquele odor tão característico.
É desse tempo a estória de que o modernista Osvald Andrade teria dado o nome de Rodo Metálico a um apadrinhado. Era o metálico oposto à variável de vidro, mais sujeita a quebra numa queda. O metálico ganhava mais nobreza. Afinal era de matéria prima mais relevante do que a coroa de Momo. ''A coroa do rei não é de ouro nem de prata// eu também já usei e sei que ela é de lata''.
A geografia
Como é inimaginável um sambódromo para Curitiba como os do Rio e de São Paulo há sempre uma discussão sobre a localização do nosso carnaval. Sua melhor fase, até pelas dimensões da avenida, era na Marechal Deodoro como antes foi na rua XV, hoje o calçadão, e agora praticamente no Centro Cívico que é uma espécie de UTI da festa que ganha um tom lúgubre com o público catatônico nas arquibancadas com raro sinal de vibração.
O feito do pré-carnaval de zumbis, garibaldis e sacys é excepcional. Derruba todos os axiomas da sociologia de bolso sobre se há ou não carnaval na Capital e em cidades como Londrina ou ainda se o ideal é a dimensão menor como os de Tibagi e Castro e os quentes de Paranaguá e Antonina. Fez-se algo aos poucos, ao longo de 13 anos, e hoje arregimenta até 12 ou 15 mil pessoas.
O perigo é sempre a hipertrofia de Estado que tenta assumir a festa popular com um dirigismo sufocante. Se o permitirmos dentro em pouco os artistas populares, os ceguinhos e deficientes, que tocam sanfona e realejo nas ruas, serão obrigados a usar crachá da Fundação Cultural.
No Setor Histórico, apesar das advertências de arqueólogos contra a ocupação do espaço pelo valor dos prédios históricos e artísticos ali existentes, é que esse pré-carnaval encontrou o seu espaço, a sua geografia. Não dá pra comparar a afluência de público a essa manifestação com a do carnaval de camisa-de-força da prefeitura e mais ainda pela forma como as pessoas se engajam na festa com um entusiasmo e ardor que derrubam outros conceitos sobre o modo de ser do curitibano, introverso e empata-soda, o de não suportar ver alguém alegre e se divertindo, um clichê a mais dentre tantas caricaturas. O neo-entrudo é desmistificador e civilizado. Nesse domingo há uma chance de purgação de culpas para os que tentaram desvirtuá-lo na semana passada.

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