Acertos do patrão
Se há uma categoria rebelde aos acertos do patrão é a dos jornalistas. Claro que hoje o enquadramento da redação tem regramentos mais rígidos do que os do passado. Lembro-me da ''Última Hora'' e do analista de jornais, Jairo Régis, que irreverentemente chama os donos de jornais adversos pelo apelido: Paulinho Nelore ou Chico Beleza. Cunha Pereira tratava todo o mundo de ''doutor'' e não suportava apelidos até porque sua educação era passada a limpo. Numa certa manhã eu estava na chefia de redação e o recebi: queixava-se que o Jairo o chamava de ''Chiquinho Beleza'' e eu o aconselhei a conversar com o diretor da sucursal Ari de Carvalho que criaria o ''Zero Hora'' em Porto Alegre e que o transferiria para a família Sirotski e ''O Dia'' no Rio, herança do Chagas Freitas. Ari ouviu Cunha Pereira e em seguida chamou o Jairo, pedindo-lhe que não o tratasse daquela forma. No dia seguinte lá estava ''Francis Beautiful''. É preciso muita paciência nesse convívio. Cansei de ver jornais com bons contratos com o governo com a sua redação assumindo uma posição furiosa, quase sindical, por exemplo, em defesa dos professores. Numa das greves, novamente o Jairo fez um comentário forte sobre o fato de o secretário de Educação forçar o filho a ir uma aula e tendo até conflitado com o pessoal do piquete. Bateu forte no secretário como se tivesse dando um mau exemplo.
Um pacto estranho
''Última Hora'' tinha poder de fogo para fazer pactos incríveis com o governo estadual. Ney Braga era pragmático demais e tinha uma quase unanimidade na mídia. O acordo com a UH era assim: ''cobertura total à figura do governador e também às três fontes financiadoras: Copel, Banestado, Badep. Já o resto estava liberado pra levar pau. Dá para imaginar a festa que um jornal populista fazia em cima da polícia, da Saúde, da Educação e do resto. Com esse hibridismo o jornal preservava um certo ar de oposição e de combate. Em greve de professor, UH deitava e rolava e às vezes obtinha até a solidariedade dos portuários, um absurdo comum. Quando propus a greve dos jornalistas em 1963, o Vitor Horácio da Costa, líder sindical do ''Forum'', perguntou se valeria a pena fazer uma paralisação nos portos com o que não concordei, embora numa parede bancária isso tivesse acontecido.
Processo militar
Respondemos em 1964 um processo militar que enquadrava toda a redação de ''Última Hora'' e algums comunistas, inclusive o Agliberto Azevedo e deputados como Dalcanale e Leon Naves Barcellos. O jornalista Cândido Gomes Chagas, como testemunha do Edésio Passos, pediu e os milicos, por descuido, admitiram, que ele fizesse declaração à parte. Ele mostrou que os incêndios florestais, que ''UH'' cobrira, deram origem a uma fatura que havia sido paga pelo reitor da Federal, Flávio Suplicy de Lacerda, naquele momento ministro da Educação. Candinho perguntou: ''quem financiava o jornal janguista?'' Isso aumentou a tensão entre ''pombos'' e ''falcões'' e mostrou de forma oblíqua que o governo era tão ou mais atuante do que o jornal e os jornalistas. Essa ajudou bastante a liberação que obteríamos no STF.

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