A massa cinzenta
Eventos recentes como esse da fraude nos combustíveis revelam que não estamos bem no quesito de quadros humanos. Inaceitáveis as explicações sobre o estado de perplexidade que se seguiu à revelação da ocorrência, um bater de cabeças em que só faltou acusar a reportagem do ''Fantástico'' de haver dificultado a ação das autoridades por não tê-las comunicado.
Volta e meia retorno a uma reflexão antiga: teríamos no Paraná um núcleo estratégico de governo, e que se unisse às universidades e empresários, para cadastrar a massa cinzenta disponível? Apreciar por exemplo a migração dos talentos, que é normalíssima, em primeiro lugar para qualquer instituição científica de São Paulo e as feitas em direção ao exterior. Temos porventura algum contato com esse tipo de realidade?
Quem me despertou para o tema, muitos anos atrás, foi o estadista Munhoz da Rocha, numa introdução de um livro da Editora Grafipar sobre o Paraná, pondo em destaque as nossas figuras que tinham expressão nacional e internacional no campo acadêmico. Recordo que citava como figuras mais conhecidas no exterior do que no Brasil como o filósofo matemático Newton Carneiro Affonso da Costa e o já falecido Hugo Kramer, este no campo da física, que parecia suceder o mestre Cesar Lattes, também da terra, descobridor do ''meson'', introdutor genuíno da era da física de partículas.

Passado idealizado
Temo, às vezes, estar idealizando o passado, mas ainda dias passados quando recebi comenda do Pinheiro vi, entre os homenageados, uma figura como a de João José Bigarella, um sucessor de Reinhard Maak na geologia e dentre os políticos o Jaime Lerner, hoje inegavelmente a nossa maior expressão em nível nacional e internacional. Da mesma forma que Lerner montou equipe excepcional no Instituto de Planejamento e Pesquisas Urbanas de Curitiba que produziriam modelos novos de intervenção urbana, em passado distante tivemos Marcos Enrietti que era o agregador da excelente linha de frente do Instituto de Biologia e Pesquisas Tecnológicas que faziam pesquisas de caráter puro e aplicado à realidade do Paraná. O IBPT produzia vacinas como a da raiva canina e da peste suína e fez, entre outras coisas, o levantamento geológico e das ocorrências minerais.
Justamente essa intervenção na realidade é que revelou talentos como o de Nelson de Souza Pinto na hidráulica, Gomide na hidrologia, tudo em função também de um líder excepcional que foi o mestre Pedro Viriato Parigot de Souza, o que mostra um entrosamento entre a Universidade e o governo.
Quando Lerner esboçou a Universidade latino-americana em Foz do Iguaçu convocou, por exemplo, para integrá-la o filósofo e cientista político Fausto Castilho, que saiu daqui para as universidades paulistas e que durante algum tempo foi diretor da Biblioteca Pública. Isso me obriga a lembrar de outro gênio que dirigiu a Biblioteca, o jurista e filósofo Lamartine Correa de Oliveira.
E os quadros atuais, como estão? Se fizermos a avaliação na montagem dos governos percebemos que a predominância do político sobre o técnico torna difícil um juízo equilibrado e aí é inevitável a sensação de que piorou..

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