LUIZ GERALDO MAZZA
Mesmice acrítica
O que há com o povo de Curitiba e do Paraná que normalmente ao ser consultado sobre seus governantes tem a tradição das notas altas. Dos bons aos medíocres, dos desbravadores aos insensatos, nossa sociedade reage com o espírito da Marcia de Windsor nos juris da televisão dos anos sessenta, todos passando por média, ninguém na dependência ou na reprovação, tudo nota azul.
Ainda agora - e isso independe do instituto que faz a pesquisa - o nosso Beto Richa aparece em segundo lugar entre os governadores do país, só superado pelo neto do Miguel Arraes, Eduardo Campos, do PSB. E essa circunstância de origem familiar, Beto filho de José Richa, e Campos, neto de Arraes, reproduz outra característica brasileira, independente da região e de sua especificidade, dessas raízes que tanto negam a mobilidade social e a sua expressão vertida em política.
Aqui no Paraná, nos últimos 22 anos, tivemos como candidatos ao governo alguém da família Richa ou de Requião Mello e Silva (três períodos) ou Lerner (esse duas gestões estaduais, fora as de Curitiba) ou alguém do clã dos Dias, Osmar ou Alvaro. São limites de quadros e de personagens: como eles não se renovam, é de perceber-se que quem não se renova mesmo é o respeitável povo.
Ruptura anunciada
O PT, por seus quadros mais pragmáticos, tem um projeto de ruptura ao que está aí cristalizado: tenta valer-se do carisma de um adversário, um dos que mais atuou no caso dos mensaleiros, o ex-deputado Gustavo Fruet, para derrubar a hegemonia do grupo hoje dominante em Curitiba e com isso abrir caminho, ou melhor pavimentá-lo, para que a senadora Gleisi Hoffmann seja postulante à sucessão (reeleição) de Beto Richa.
Justamente a eleição majoritária do Senado é o fundamento dessa postura: o peso de Beto Richa foi relativizado, já que se empenhou mais por Ricardo Barros do que por Fruet, o melhor classificado do PSDB, e não conseguiu evitar que Requião ficasse com a segunda vaga. Mas foi justamente o desempenho de Gleisi, como primeiríssima classificada, e o de Gustavo Fruet como o primeiro de Curitiba que deu fundamento ao exercício de realismo do PT majoritário e que irrita setores históricos, daqueles tempos em que o partido curtia o mito das barricadas e vivia de conflitos de rua e da bandeira ética. Isso perdeu o sentido porque o PT é poder e decidiu partilhá-lo com velhos representantes do mais descarado dos fisiologismos.
Curitiba, a chave
Uma das confianças de Beto Richa, maior eleitor do Paraná (e não apenas por ser governador, mas pela densidade eleitoral acumulada), é que prevaleça, uma vez mais, esse sentido de identificação do paranaense com aquilo que aparenta fazer e que se traduz nessa hegemonia confirmada pelas pesquisas. Por sinal que ela tanbém favorece o prefeito Luciano Ducci. Esse grupo é herdeiro em parte do neoneysmo, tantas foram as vezes em que o ex-governador esteve em frente comum com o lernismo. Daí uma convergência histórica e difícil de remover a não ser que a emulação eleitoral expresse um verdadeiro conflito e não apenas um exercício de treinamento como quase sempre ocorre. O problema é que a sociedade paranaense, a tradicional, não gosta que removam o fundo da lagoa e sem isso é impossível haver a lama suficiente para a construção de uma nova ''ordem''.





