A magia nas palavras
Houve um tempo, e não faz muito, que ninguém pronunciava o nome de doenças como tuberculose, câncer e outras com o receio de que um efeito mágico pudesse transmitir a moléstia aos demais. Vivemos num mundo diferenciado: a atual presidente e seu antecessor no Brasil fizeram tratamento contra o câncer como se dá também com a Cristina da Argentina e com Chávez da Venezuela, o que levou esse a valer-se de um rumor conspiratório por se tratarem de lideranças da América Latina, a sempre explorada pelo colonizador e o imperialismo, velho chavão do vitimalismo para justificar, inclusive, as nossas carências.

Mesmo em tempos modernos tivemos algumas autoridades que ocultaram a malignidade da doença que sofriam como se deu com pelo menos dois líderes franceses. A sociedade moderna pede clareza, informação, daí a inviabilidade de persistirem os velhos e surrados conceitos e preconceitos. Um caso típico foi de um dos artífices do Plano Cruzado de Sarney, seu ministro da Fazenda, Dilson Funaro, que afirmou publicamente estar com um câncer linfático.

Pertinaz moléstia
Lembro que os jornais davam assim a notícia de um falecimento: a morte por pertinaz doença ou por patologia incurável, nada de nominar o mal.
A antropologia cultural se ocupa e muito desse tema. Sua raiz mais remota, na praxe polinésica, se estuda o tabu (no caso a palavra interditada) e sua forma de contorná-lo na aplicação do ''nôa'', que não é um eufemismo, mas um cordão, também mágico, para contornar a interdição. No Brasil é comum esse recurso para evitar a citação de Satanaz e do demônio pelo ''tinhoso'', o cão, coisa ruim. O linguista paranaense Rosário Farani Mansur Guérios tem um alentado estudo ''Tabus Linguísticos'' em que mostra a ocorrência tanto do que é interdito e como nele se aplica a ''nôa'' para neutralizar a malignidade e isso em todos os povos do universo, como cada um, à sua maneira, encarava o mistério e a magia.
Há o cuidado também com expressões que ganham por uma conotação ideológica o tom do interdito e do proibido. Lembro que no excelente governo de Carvalho Pinto, em São Paulo, um projeto reformista evitou a ênfase em ''reforma agrária'' por causa da cintilação semântico-política da expressão substituída por revisão agrária. Talvez um impulso de evitar que um projeto regional tivesse a retumbância da reforma que era pleiteada nos comícios de Jango.

Mal de Hansen
Além da catalogação médica, que tem codificação apropriada para doenças, que trata a tuberculose como tb e o câncer como c.a., não se pronuncia morféia ou lepra (e aí há o peso secular do horror ao fato como havia também em relação à peste bubônica) e prefere-se o civilizado e pasteurizado ''mal de Hansen'' ou ''hanseníase''. Obviamente quanto maior a possibilidade do contágio maior a aura de horror. O pior é que algumas doenças que pareciam erradicadas como a tuberculose pela adoção de meios profiláticos (abreugrafia, exame de lavado do pulmão, tuberculina) voltaram com toda a força e isso quando se achava que a literatura, a ópera inclusive, exageravam no trato à ocorrência que teria sido afastada. O tuberculoso, no passado, era apenas ''ruim do pulmão''.

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