Conflitos edificantes
Sem conflito não há progresso. Todos os autoritários abominam o conflito porque cultuam a paz dos cemitérios. Nem sempre os conflitos fazem emergir as questões mais profundas que dividem os grupos sociais. Mas desde a morte de Getúlio Vargas o País tem visto o aflorar das causas remotas que nos afastam ou aproximam. Com seu suicídio, Getúlio derrotou a mobilização civil-militar que o desmoralizava com a República do Galeão, um IPM tocado pela Aeronáutica em função da morte do major Rubens Vaz num atentado contra Carlos Lacerda. Um setor significativo das Forças Armadas, o mais ponderável como liderança e quadros, foi obrigado a recuar tanto aí como nos fatos posteriores, como o da posse de JK, precedida do impedimento de Carlos Luz, e o da renúncia de Jânio e posse de Jango. A ligação era dos campos de batalha na Europa com os oficiais norte-americanos, dentre eles o coronel-diplomata Vernon Walters, homem forte da CIA: primeiro promoveram a democratização com a derrubada de Getúlio, que, mesmo exilado, se elegeu senador e apoiou a vitória de Dutra e voltaria em 1950 como presidente.
O feudalismo político
Há sociedades fechadas no Brasil como as representativas do Nordeste, no que tem às vezes de mais atrasado como a força de um Sarney no Maranhão, a de Collor em Alagoas. Essas oligarquias têm o poder de conter conflitos e isso se repete aqui, embora a nossa condição alegada de ''sociedade complexa'', moderna e supostamente competitiva.
Uma das evidências de esforços para evitar conflitos está na resistência do Poder Judiciário à ação desenvolvida pelo Conselho Nacional de Justiça, e que se acirrou com o bloqueio à continuidade de investigações sobre enriquecimento ilícito de magistrados e servidores do Judiciário. O que surpreende é que, no momento máximo do ativismo judicial (em que princípios são transformados em norma, como a questão do nepotismo, até aqui encaminhada e mal resolvida; ou a de regular a greve de servidor público, ou ainda admitir a relação homoafetiva), há essa fragilidade decorrente das amarras do corporativismo.
Vivemos momentos pendulares de afirmação e queda das instituições: apesar de ter conduzido bem o caso dos mensaleiros (amarrado está é no Judiciário), o Congresso Nacional abriu mão do seu papel, exaltado, porém, na aprovação da lei de iniciativa popular sobre os fichas-sujas.
Nosso exemplo
Nossos exemplos são negativos: a lei de iniciativa popular contra a venda da Copel foi derrotada pelo governo e o leilão frustrou-se por causa do ataque às torres gêmeas, o apagão brasileiro e a hostilidade do mercado. Sonhadores e defensores das barricadas insistem em achar que foram eles e não o mercado que abominam, como dizem Requião e Pugliesi.
Tivemos momentos de ruptura na vitória de Bento, na volta de Lupion, no ciclo do neysmo rompido com Richa e na vitória de Requião sobre Lerner em 1985, em Curitiba (única até agora contra a hegemonia da área que ainda persiste). Movimento pendular que não tem sabido se traduzir em ''ideias forças'', como nas eleições de Munhoz da Rocha e Ney Braga. Curitiba é um desafio permanente, com a suposta intangibilidade do decantado modelo e na verdade protetor de um complexo de interesses econômicos visíveis apesar do esforço de esconde-esconde.

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