Mergulho lírico
Outro dia, lembrando da homenagem a Santa Luzia, que cuida da nossa vista, lembrei dos refrões que declamávamos à medida em que gotejávamos algum remédio ou até água com açúcar na parte magoada: versos de pé quebrado, naturalíssimos, ditos como quem reza. ‘‘Santa Luzia passai por aqui/ com seu cavalinho comendo capim/sangue de Cristo pingai aqui/ sangue de Cristo pingai
aqui.’’ Essa singeleza de colagem ‘‘com seu cavalinho comendo capim’’ lembra aquelas estampas de colégio para textos de composição, mas é justamente o referencial que dá extrema naturalidade, o espanto da poesia moderna, à oração.
Lembro de todo um arsenal doméstico, de medicina caseira, assentado nessa visão entre religião, e quanto mais espontânea mais rica, e remédio. Por exemplo quanto pintava um caso de impingem ou ‘‘cobrero’’, dermatoses enfim com designação popular. Lembro de uma ‘‘receita’’ que era declamar ‘‘impingem rabuja/ que eu quero curar/com cuspo em jejum/ alfavaca e sal’’. O uso da saliva era muito comum em várias situações como se fosse um imunizante, de traço autógeno. O cuspo, líquido do corpo, ganhava essa dimensão de cura também nos ferimentos.

As magias
Indispensáveis também as magias. Lembro que se houvesse um ferimento com prego enferrujado uma das saídas era isolar o instrumento da agressão e fazê-lo transfixar uma cebola. Evidente que medicação antipiogênica ou antitetânica seria mais útil. Assim eram os nossos nem sempre respeitáveis rituais. Quando aparecia uma íngua, normalmente sinal de infecção, num tempo em que mal se conhecia os antibióticos, havia uma simpatia cheia de significados mágicos: colocava-se os pés do doente, exatamente de onde se formara a íngua, em cima de cinzas tiradas do fogão e com uma faca, que desenhava cruzes, o ‘‘oficiante’’ pregava ‘‘íngua, mingua, íngua/ eu te corto/ íngua, mingua, íngua, em duas, três partes’’ e dá-lhe a desenhar cruzes.

Cantigas de ninar
Lembro também das cantigas de ninar: elas traziam para o nosso cotidiano, como se fossem nossos vizinhos, as figuras da Sagrada Família: o menino Jesus e José e Maria, entregues a tarefas domésticas como a de varrer e lavar. Um dos cânticos era assim ‘‘Senhora lavava/ São José estendia/ o nenê chorava/ do frio que fazia/ não chores, nenê, não chores, amor/ as facas que cortam/ são talhos sem dor/ mucama crioula/ que veio da Bahia/ para lavar o nenê na bacia/ bacia de prata, lavada com sabão/ para o nenê vestir o seu roupão/ roupão de veludo/ touquinha de filó/ para o nenê visitar sua vovó’’. E de transplante entre quadros do mundo sagrado e do profano em que estávamos mergulhados construíamos esses cânticos, alguns fixando aspectos da Casa Grande & Senzala como a referência à mucama crioula que veio da Bahia para lavar o nenê na bacia. Depois de todo enlevo, de um Jesus menino transfigurado num dos nossos irmãos ou vizinhos, o canto feito oração, a história rumava para o prosaico da visita à vovó. Maria lavando a roupa, São José estendendo-a para coarar, todos ao nosso lado no cotidiano - como não perceber
algum sinal de transcendência por aí?

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