Estamos blindados

O pacote do governo, com renúncia fiscal e estímulo ao consumo, não é forte o suficiente para prevenir efeitos de uma possível recessão mundial. Não chega a ter as características da blindagem oferecida ao ministro Carlos Lupi, mas o fato é que em circunstâncias anteriores assegurou o aquecimento do mercado com a venda em massa de automóveis e produtos domésticos duráveis.

Percebe-se, no entanto, nos personagens do governo a crença reafirmada de que estamos num bom caminho e que teremos um crescimento do PIB interno superior a 4%. Como se vê, ainda há um clima de euforia (que anteriormente se justificava diante de um momento bom tanto da economia mundial como da interna) como se os indicadores macroeconômicos já não estivessem recomendando estrita cautela.

A medida do Copom, baixando juros, se articula à estratégia adotada, bem como providências complementares com financiamento farto da Caixa Econômica Federal para garantir o aquecimento desejado. Nessa postura de autoconfiança, não se pode negar, há um fator psicológico que acaba mexendo com os agentes do mercado, tanto empresários como consumidores.

Outra blindagem

Todos os ministros defenestrados - e todos da era Lula - foram, ainda que em intensidade variável, também blindados. Deu-se-lhes tempo suficiente para defesa, mas como ''sangravam'' e isso comprometia o governo, percebeu-se que surgiam fatos novos e documentais que os atingiam de forma inquestionável.

No caso recente, do ministro do Trabalho, pela vez primeira, o Conselho Ético se viu impelido, pela riqueza das provas colhidas, a sugerir a sua exoneração e apesar disso a presidente Dilma entendeu que Lupi deveria ter o direito de procurar os membros daquela instituição para explicações. Enfim, como sempre, a moratória, mas aí, como nas vezes anteriores, multiplicaram-se as denúncias como aquela caricata da sua situação de ''fantasma'' da Câmara Federal.

O objetivo do governo era não mexer mais no ministério até a sua reforma geral em janeiro, quando sofrerá as pressões não só do PT, que não se acha bem representado, como do guloso PMDB, que chantageia por hábito, como faz agora em favor do líder do governo na Câmara Alta. Se nesses postos, o da representação parlamentar, há pressão, imagine-se o que haverá de resistência na composição ministerial com o argumento de que a ''governabilidade'' exige a sustentação da base aliada.

Corrosão lenta

Apesar de a oposição inexistir (Alvaro Dias é um dos poucos que a exercita com alguma competência), o governo ainda se sente forte tanto no plano da economia como no da política. Convenhamos que até hoje o fator econômico foi a base de sustentação da expressão política, esta minada pela pandemia de corrupção interministerial. A economia está, há algum tempo, dando sinais de crise com o avanço incontrolável da inflação e os sinais relativamente baixos do PIB esperado para o exercício.

O cenário pode, portanto, mudar significativamente e aí pesará a corrosão lenta dos ministérios atingidos. Para complicar, de repente sai a decisão relativa ao mensalão e aí haverá choro e ranger de dentes.

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