Marxismo em compota
Karl Marx foi um pensador sofisticado, sutil, embora o sentido revolucionário de sua obra (O Capital, A Mais Valia). A versão popular de suas ideias para proselitismo de massas ganha simplificações que se distanciam da metodologia que criou para interpretação da história. Dá para imaginar um militante obreiro fazendo a exegese de um pé de página de ''O Capital'' em que se entrelaçam epistemes até religiosas: ''De uma certa maneira, acontece com o homem o mesmo que ocorre com a mercadoria. Como ele não vem ao mundo com espelho nas mãos nem como um filósofo fichteano, que diz ''Eu sou Eu'', o homem se espelha, em primeiro lugar, num outro homem. Em primeiro plano, só pela relação com o homem Paulo como seu igual. relaciona-se Pedro consigo mesmo enquanto homem. Com isso, entretanto, Paulo é transformado totalmente, na sua corporeidade paulínia, numa forma fantasmagórica e necessária do gênero humano''. O filósofo Roberto Romano em ''Corpo e Cristal: Marx romântico'' mostra a recorrência de tinturas teológicas e diz ''Os perfis de Pedro e Paulo, inversões espelhadas da mesma revelação, atravessam as representações sobre o mundo temporal e o Eterno, firmando-se na metáfora do olhar.''

Não marxista
O risco do marxismo em compota em função da sua versão popularesca e primária é uma constante. E o próprio Marx, conforme estudo publicado em jornal nesta semana, fala em seu espectro (fato destacado também por Jacques Derrida) em decorrência de assimilação forçada e artificiosa dos seus pensamentos ''Estou a um passo da morte e temo pelo que virá, temo pelo que será feito em nome de minhas ideias e pelo que não será possível fazer. Certa vez, disseram-me que, na França, um partido político dizia-se marxista e eu retruquei de imediato: ''Eu, pelo menos, não sou marxista.'' Algo como Jesus não se dizendo cristão.

Ciência e família
É incompreensível que um fanático aceite uma afirmação de Karl Marx em que ele ao admitir o avanço do conhecimento aceite supressões em sua teoria: ''Minha obra permanecerá, usem-na como quiserem, mas eu sei que meu objetivo - a análise do funcionamento do modo de produção capitalista - foi apenas iniciado e meu universo teórico demanda e aceita contribuições e adendos, aceita até as supressões que o avanço no conhecimento exige de qualquer modelo teórico''.
Essas observações decorrem de ''O Manuscrito Secreto de Marx'' do escritor e economista Armando Avena com uma visão romanceada ds obra e da vida de Marx. Um dado curioso é a distância entre o comportamento de Marx na vida familiar e os conceitos revolucionários que defendia como abolição da família. Tanto que exigiu do anarquista Paul Lafargue (autor de ''O Direito à preguiça'') que mostrasse capacidade financeira para casar com sua filha, Laura, e reprovou o relacionamento informal da filha Eleanor e Prosper Lissagaray. Eram conflitos entre opinões de Marx e sua própria vida. Tanto Marx como a mulher Jenny captavam essa contradição: queriam que as filhas tivessem futuro seguro, já que tinham visto os filhos sofrerem (quatro morreram) por causa da pobreza em que viviam.

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