Filosofia dos matizes
Bento Munhoz da Rocha, um dos derradeiros governantes do Paraná que pensavam, era um católico da corrente neotomista de Jacques Maritain, o filósofo dos matizes. E matizar as coisas era uma das características do seu discurso. Em dezembro de 1947, sequência do processo constituinte do Brasil, houve o ato de força do sistema a serviço da Guerra Fria, que se iniciava, cassando o Partido Comunista e também o mandato dos seus integrantes. A voz liberal mais forte que se ouviu contra a medida foi a do parlamentar paranaense.
''Precisamos - dizia - fugir da indistinção que enxerga em todos os comunistas uns bandidos sanguinários, dignos de sumária eliminação para garantia da ordem e da sua segurança e estabilidade... É preciso fugir do primarismo de que os comunistas estão substancialmente penetrados, quando enxergam o mundo oscilando entre o fascismo e o comunismo, sendo necessariamente fascista o que não é comunista, com aquele sabor de insulto profundo, que tem o adjetivo fascista a escorrer, instintivo, dos lábios de um comunista fichado, de um comunista mediocremente integrado nos padrões e normas do seu grupo. Pela lógica que está patente nesse simplismo, só seria possível combater o comunismo com métodos fascistas, isto é, com métodos análogos ao do próprio comunismo. Isso seria o fim melancólico da democracia, mas, para desgraça do comunismo, essa lógica é um erro tremendo que fez uma brilhante carreira e uma enorme devastação intelectual, e um erro que temos de combater, para que não se venha a fazer o jogo do próprio comunismo.''

Maniqueísmo pernicioso
''Eu não sei - prosseguia o orador - como combateremos o comunismo, mas receio que a nossa displicência, quando sacudida, quando despertada, pode ser conduzida a exageros perniciosos. Não é possível proscrever a todos que se dizem comunistas, menos ainda, a todos aqueles sobre os quais pesa a desconfiança da simpatia pelo comunismo, isolá-los da convivência nacional, e proscrevê-los, a todos, como igualmente perigosos...
Presenciei a verdadeiras ignomínias, quando nivelaram, na mesma perseguição, misturando na mesma cela e sujeitando ao mesmo tratamento, a quintas colunas confessos, nazistas e japoneses, e a brasileiros integralistas, de nacionalismo exclusivista e agressivo, integralistas de alma verde e amarela, integralistas que vibravam no seu ufanismo de estilo pátria-amada. É impossível ultrapassar, em requinte, essa indignidade. É necessário que se evite, a todo custo, a repetição daquela ignomínia, já agora, contra os comunistas''.
Depois de criticar a padronização dos militantes comunistas até na voz e nos sotaques (''ao ouvi-los não se percebe, não se distingue um pernambucano de um gaúcho'') concluiu: ''Menos perigosos são eles, exercendo o seu legítimo direito de afirmação, sob nossa vigilância e na nossa convivência. Seriam aqui simples deputados, com três anos de mandato. O nosso ambiente parlamentar não é propício a que eles se tornem em heróis ou vítimas, não é favorável a que em torno deles a imaginação popular teça romances. Esta tribuna devassada pela política da crítica não fomenta mistérios nem lendas.''

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