Sobre a esperteza
Há uma expressão bem carioca, ''fique esperto'', assinalada com aquele modo de dizer amalandrado, que é menos um alerta, sinal de atalaia, do que algo que permeia o nosso viver cotidiano: a esperteza.
Ela pode ter variáveis como a de levar vantagem, consagrada pelo jogador Gerson na propaganda do cigarro Vila Rica. Na publicidade não há compromisso com o cartesianismo, razão pela qual essa vantagem não ficava esclarecida como não se sabe que ideias nobres são essas que fundamentam o anúncio de um dos maiores bancos do país.
Há um texto de Munhoz da Rocha sobre o complexo de esperteza entre nós. Bento se refere à sua penetração por todo corpo da nacionalidade. ''Suga-lhe'' - dizia ele - ''todas as energias. Fatos muito simples devem ser, na sua divulgação, enfeitados com versões de grandes complicações, porque os espertos não acreditam nunca nas coisas simples. Uma das manias da esperteza é enxergar longe, devassar intenções ocultas nas coisas mais simples. O esperto complica tudo. Não aceita a versão pública dos acontecimentos. Advinha intenções, ainda quando os fatos, de tão claros, não admitem outra interpretação. A esperteza anda sempre descobrindo desvãos secretos, que não se divulgarão nunca, e só os espertos, só os sabidos perceberão, ainda que contra a evidência. O complexo de esperteza conduziu a esta conclusão monstruosa: só acreditar na honestidade, quando a desonestidade é materialmente impossível.''

Mergulho no caos
Essa observação - a de crer na honestidade só quando a desonestidade se revelar materialmente impossível - embora chocante se ajusta ao quadro nacional de hoje quando a impressão que se tem é que a corrupção parece ter tomado conta de tudo, em metástase, e se percebe a fragilidade institucional para contê-la nas respostas que o Tribunal de Contas, o Ministério Público, o Judiciário, enfim, estão aptos a proporcionar como é exemplo o mensalão comandado por José Dirceu, a figura predominante do governo Lula, num processo que ameaça dar em nada pelo risco da prescrição dos crimes atribuídos aos beneficiários da base aliada.
''Para o brasileiro,'' - afirmava Munhoz da Rocha - ''a Constituição, a lei, o regime, como a democracia, tudo reside na zona do ideal. A vida tem de adaptar-se à democracia ideal, à Constituição, ao sistema. Para o norte-americano, tudo isso é uma acomodação que aos poucos se estrutura, que aos poucos se transforma. Tudo isso vem da vida, é criado pela vida social, plasticamente. A ideia subordina-se às limitações e imperfeições do mundo contingente.''
Essa reflexão sobre o sistema e o ideal é apropriado. Tanto que no fazer constitucional - e isso deu para percebê-lo em 1988 e nos desdobramentos interpretativos da Carta - havia a preocupção de transformar praticamente o texto numa sequência de cláusulas pétreas ou princípios autoaplicáveis, mandamentais, o que é sabidamente impossível, mas que assegurava o tom veemente das discussões num plenário tomado por todos os lobbies, num jogo de pressões muito mais forte do que o da Constituição de 1946, uma das mais bem equilibradas que tivemos.
''Ponha-se a nu a esperteza. Mostre-se a degradação que representa nas relações humanas; o desassossego e a inquietação que traz à vida nacional.''
Assim falou Munhoz da Rocha, um dos melhores de nós.

mockup