LUIZ GERALDO MAZZA
Pensamento e ação
Não poucas doutrinas tentaram fazer com que o pensamento traduzisse a própria ação. Pretensão ideológica, puro discurso. Hoje não podemos classificar de pensamento o que anda por aí: a repetição dos clichês, o apego às formas superficiais de comunicação publicitária, a busca do coloquial no ''teaser'' que tenta passar por ''ideia-força''.
Já tivemos gente que pensava no governo: com Munhoz da Rocha, ele próprio, um doutrinador, um maritanista do cristianismo como tantos outros do seu grupo;
Ernani Reichmann, um dos maiores intérpretes da obra de Kierkgarden; Fausto Castilho, cientista político, e Lamartine Correa Lira, cristão radical em transição à esquerda, esses dois últimos diretores da Biblioteca Pública, todos mestres universitários.
Hoje dá a impressão que não é apropriado pensar. Não há espaço nem clima. Quando Bento Munhoz da Rocha foi contra a cassação dos mandatos comunistas ele apenas reafirmou a sua condição de liberal, nada mais e já aquela época, anos quarenta, apesar do processo constituinte no Brasil, havia uma sedução forte pelo totalitarismo.
''Nada mais simplista'' - dizia Munhoz da Rocha - ''do que as soluções totalitárias com a sua visão unilateral resumida neste argumento: há abusos na liberdade de pensamento, e ninguém os nega; conclusão totalitária: suprima-se a liberdade de pensamento, sacrificando-se, em consequência, com as deformações da liberdade, a própria liberdade, que é uma qualidade específica e, portanto, inalienável da espécie humana... Tão simplista é enxergar em todos os comunistas uns sanguinários ou rompe-ferros, como atribuir a todos os integralistas ou ex-integralistas cumplicidade com o fascismo internacional. Temos de combater a nossa indistinção a confundir e a misturar os comunistas, sem perceber neles nenhuma gradação ou diferença de sentimentos, como se todos pensassem na subversão, a todo custo, da ordem vigente''.
Haja matizes
A identificação de Munhoz da Rocha com o filósofo dos matizes, Jacques Maritain, permeia o seu discurso: ''Sem precisar deter-me na sua ideologia materialista, hoje tão divulgada e que, felizmente, deixou de ser tabu, vejo, no comunismo como ação, um partido revolucionário, um partido adaptado à vida dos países democráticos e um programa de reestruturação econômica. Considerando como um ideal de reestruturação econômica, ninguém se defende dele, agarrando-se às injustiças, aos exclusivismos e às tolices do capitalismo clássico, com as suas durezas inumanas e a sua concepção econômica toda encerrada em compartimentos estanques no seu mundo à parte, absolutamente impermeável a quaisquer restrições de ordem moral e a toda exigência de solidariedade humana, mundo à parte em que les affaires sont... les affaires.''
''Se o comunismo fosse apenas o apregoado ideal de dar novas normas às atividades econômicas, mantendo inalteradas as raízes cristãs da nossa civilização, que nem todas as deformações burguesas conseguiram eliminar, não haveria grandes lutas a travar''. Assim era Bento num tempo em que pensar não era exceção.





