LUIZ GERALDO MAZZA
Nem tudo melhora
Um dos dísticos do governo pós-Lula é o de que está fazendo um arraso contra a pobreza e isso já encantou até os sociólogos oficiais que falam da nova classe média, um case de mobilidade social. Tanto que a presidente Dilma Rousseff, ao anunciar o seu recuo no esquadrinhamento da corrupção, hoje em metástase, disse que a faxina importante é contra a pobreza. Dá para lembrar dos tempos da UDN, quando a cada denúncia do afano havia a resposta de que a preocupação do governo era com as reformas e a emancipação do país e que o moralismo era um instrumento da direita reacionária.
Se está tudo bem, por que tantas greves o que aliás fortalece a democracia e arregimentações de juízes e pessoal das universidades? E por que o chio dos aliados, do braço rural da nova ordem, o MST e Via Campesina, a invadir sedes do Incra alegando que o governo é desidioso em relação à reforma agrária?
Não há como tirar da pauta a questão da corrupção porque a cada momento surge um fato novo em algum dos ministérios e de rituais como o hábito de pegar carona em aviões de empreiteiros ou de ricaços como o Eike Batista. Se houve o recuo da presidente, certamente isso não ocorrerá com a oposição e a mídia, que persistirão em dar esses informes ao público que é lesado.
Ricos mais felizes
Dá para perceber neste momento que os ricos nunca estiveram em sincronia tão harmônica diante do poder estatal. Na verdade ainda há sedimentos fortes do ciclo virtuoso da economia que tanto beneficiou Lula e que se houvesse redução dos gastos públicos estaríamos em situação melhor ainda. Os movimentos sociais ligados à terra se mantêm mobilizados, como estamos vendo, mas jamais mostraram os retornos econômicos e sociais dos assentamentos, o que seria um argumento forte, o da eficiência, para defender a reforma agrária.
Ignácio Rangel, homem de esquerda, alertou há muito tempo que a reforma agrária tinha perdido o bonde da história a partir do momento em que o capitalismo chegou ao campo. Se o capitalismo no Brasil já tinha o timbre de tardio, imagine-se como foi difícil numa estrutura feudalizada trazer o sinal da modernidade. Se a pequena propriedade foi eficiente (e o exemplo do Paraná com o café é inquestionável, como também o de Santa Catarina) é justo esperar que os assentamentos, se contarem com rede assistencial adequada, também se revelem produtivos e não alvo de especulação, com a venda dos lotes e o nomadismo das pessoas.
Fala-se que de Fernando Henrique Cardoso para cá despenderam-se mais de R$ 30 bilhões nas operações reformistas, desapropriação de terras, manutenção de estruturas burocráticas como a do Incra e do Ministério da Reforma Agrária. Isso sem falar em investimentos específicos na chamada agricultura familiar, fator de equilíbrio numa produção que não pode discriminar módulos pelo seu tamanho e subordinados, é lógico, a limitações para que não se restabeleça o conceito medieval da propriedade, aquele que admitia o direito de abusar (abutere) ao lado do de usar e fruir.





