Inesperado é possível?
As acomodações na vida brasileira só se rompem por via traumática: suicídio de Getúlio Vargas, renúncia de Jânio, seguida de tentativa de golpe contra Jango, a Redentora, a queda de Collor. As nossas, as regionais, lembram uma acomodação geológica. E é grande a ansiedade quando o sistema de forças e de valores é posto em xeque como agora diante dos atos de saneamento no Poder Legislativo. Ali a praxe se mostrava mais consistente do que a lei daí porque não impressiona o tipo de caos instalado e para o qual a impressão que resta é que qualquer solução, seja de ajuste ou de correção, é de difícil construção.
Essa relação orgânica entre a fraude e o processo legislativo, como se um dependesse do outro, é constante na terra e isso talvez explique, além das patologias cometidas, o incêndio que houve na Casa e que poderia até ser olhado como uma ''queima de arquivo''.
O fato é que os beneficiários e autores das irregularidades se acham protegidos pela dificuldade, a um só tempo, de aplicar a lei onde ela é tão impossível quanto a luminosidade para o Conde Drácula e corrigir o mal feito.
O processo iniciado não tem volta. Questionar que o presidente Rossoni também está comprometido na teia das irregularidades praticadas, por ter sido primeiro e segundo secretário na Comissão Executiva, tambem não lhe retira o direito de agir como está fazendo e daqui para a frente só pode avançar, já que o mínimo sinal de recuo será uma derrota. Se é temerário ou tenta fazer o Dom Quixote, na visão positiva, só o tempo dirá.
Juízo, afinal
Há os que exageram e olham as questões mais recentes da política paranaense, seja o caso do prefeito em exercício, João Claudio Derosso, cujo impeachment está sendo pedido de uma forma um tanto juvenil, e os episódios do Legislativo como um Juízo Final. São tão notórias a convivência de grande parte da sociedade com os atos praticados, tanto o do presidente da Câmara da Capital com a mulher envolvidos em ato de manifesta improbidade como o das deformações parlamentares, que a torcida para uma acomodação permeia toda a malha da sociedade cartorial e setores do poder de Estado. É que o constrangimento atinge todos e expõe o poder de julgamento do Tribunal de Contas em sua área específica (pode valer uma aposentadoria que não consta do seu registro obrigatório?) e do próprio Judiciário que na sequência será provocado pelos que se acreditarem prejudicados inclusive no tal do ''direito adquirido'' se é que o princípio prevalece quando em sua origem a fraude o contamina e degrada e o faz nulo, anulável e até inexistente.
A tradição nossa é da conciliação, do ajuste, do silêncio e não a da cobrança implacável. E essa a razão porque o momento é de desconforto para dizer o mínimo na sociedade permissiva, tão habituada a essas práticas. Só que as alternativas para saídas estão cada vez mais difíceis num labirinto sem fim.
Não estamos no Juízo Final, mas perto do juízo afinal se respondermos aos desafios ora colocados.

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