Por que vadias?
Nesta semana uma pesquisa do Ministério Público revela que mulheres agredidas sofrem com a falta de assistência. Ela se inicia com a omissão de atendentes do 180 e a recusa sistemática de policiais em fazer o boletim de ocorrência.
Curiosamente, esse trabalho do Ministério Público apareceu dois dias antes do desfile das vadias, movimento que ocorre em várias capitais e com uma certa medida de sofisticação intelectual. Nessa sondagem ficou patente que o atendimento mais criticado pelas vítimas de violência foi justamente o prestado por delegacias comuns da polícia civil.
É evidente que quanto mais baixo o extrato social dessas vítimas, maior a carga de violência e também de desatenção da parte da polícia judiciária. Percebe-se a colocação nesse contexto da desídia funcional e do desprezo pela cidadania quanto mais humilde a pessoa atingida. No ano de 2010 a Central de Atendimento Mulher-Ligue 180 registrou 279 reclamações contra serviços de atendimento, o mais criticado deles o prestado pelas delegacias comuns da Polícia Civil, que responderam por 44% das queixas registradas ano passado.
Na sequência vieram o Disque 190, telefone de atendimento ao cidadão da Polícia Militar, com 26% das reclamações e serviços prestados pelas Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher, que geraram 17% das críticas.

Curitiba na frente
Ao todo foram registradas reclamações de 86 municípios paranaenses. Curitiba saiu à frente em número de queixas, com 65; Foz do Iguaçu com 13 reclamações; Ponta Grossa com 12; Maringá, 11; Colombo, 10; Londrina e São José dos Pinhais, com nove, também mostraram as deficiências. No relatório do Ministério Público são citados exemplos assustadores de situações de agressão às mulheres. Uma das vítimas denunciou à Central de Atendimentos que policiais do 190 lhe informaram que só compareceriam ao local da agressão se a mulher estivesse morta. Outra argumentou que policiais não tomaram providência após registro de uma ocorrência porque eram amigos do homem que a agrediu.
A desídia policial se apoia também na preservação de valores sectários típicos do preconceito. Outra dificuldade é a alegada autonomia da polícia, que resiste a ter o controle externo de sua atividade à conta do Ministério Público. Junte-se a isso a falta de capacitação dos funcionários para um bom desempenho e as deficiências estruturais da polícia, assoberbada com um problema de falta de efetivo, tanto que praticamente reproduz o quadro de três décadas passadas, o que revela uma degradação inaceitável.

Timbre pedagógico
A Marcha das Vadias tem tudo a ver com as descriminações que ainda marcam a nossa sociedade, apesar de tanta aparência de avanço na divisão do trabalho e em tudo que é moderno, contemporâneo. O título caricatural é emblemático e também pedagógico. Mostra que apesar de todos os ganhos culturais, a mulher é ainda tratada como se fosse de uma escala inferior.

mockup