LUIZ GERALDO MAZZA
Perdemos o pique
A sensação que dá hoje em dia é que o Paraná perdeu o pique, aquele tom que marcava o seu estilo de desenvolvimento dos tempos de Munhoz da Rocha, no apogeu do ciclo cafeeiro, de Ney Braga no arranque para a infraestrutura econômica do Estado no ataque a estradas, linhas de transmissão de energia, usinas, portos, aeroportos, telecomunicações. A sensação de que o Paraná estava pronto, sem problemas, foi registrada numa reportagem documental de Hélio Teixeira na ''Veja''. Hoje o Paraná está ''pronto'' num sentido bastante negativo como o da balança com mais importação do que exportação e sem recursos financeiros com orçamento estourado. O que semanticamente significou, em passado recente, o estar ''pronto'', liso, sem grana, bolso vazio.
É que naqueles verdes anos tínhamos um clima desenvolvimentista, tipo JK. Todo o dia um fato novo, uma obra estratégica em andamento, a construção de uma hidrelétrica, da linha férrea entre Ponta Grossa e Apucarana, andamento de rodovias em todas as direções. Tudo isso criava na população e nas várias regiões geoeconômicas a ansiedade de também ter acesso a tais melhorias. E é especialmente depois de Ney Braga que essa efervescência é mantida, a gestão de Paulo Pimentel é tão criadora quanto a anterior e assim aconteceria com os que se seguiram como Parigot de Souza, Emílio Gomes e notadamente Jaime Canet, este criando um modelo de pavimentação de baixo custo que acabou adotada pelo Banco Mundial, dando 5 mil kms de rodovias.
Não estava pronto
Da mesma forma que a história não terminou como sentenciara um papper do Fukuyama após a derrubada do muro de Berlim e o ruir do sistema soviético também ao Paraná se impuseram novas necessidades. O que caiu mesmo, e isso é indiscutível, foi ao lado da falta de estratégia a carência de recursos humanos. E outra coisa: o fascínio pelo marketing expulsou a inteligência de campo. Para os apressados e superficiais eles substituem com vantagem aos filósofos que sempre tivemos como Fausto Castilho no governo Oliveira Franco, Ernâni Reichmann no de Munhoz da Rocha-Ney Braga, um progressista das causas sociais como Joaquim de Mattos Barreto, um agudo espírito como Ubaldo Pupi que chegou a ser assistente de Jacques Maritain, a inquietude do planejador de um Eduardo José Daros que trabalhou com o marxista ianque Paul Baran. Enfim havia pensamento, havia uma ideia do que se pretendia em relação ao futuro imediato e remoto. A Aliança Francesa mandava para o exterior figuras como Saul Raiz, que estudou com o padre Lebret, Jaime Lerner e boa parte dos quadros que mudaram o jeito urbanístico de Curitiba.
Sob o comando do coronel Alípio Ayres de Carvalho, formamos uma geração de técnicos e planejadores e gênios da administração como Belmiro Valverde Castor Jobim e exportamos quadros como Karlos Rischbieter, Reinhold Stephanes, Osiris Guimarães. A impressão que se tem hoje é de dispersão e dificuldade extrema em buscar a refundação desse processo. Falta-nos um elemento motivador, pegada, para reanimar os quadros ainda existentes porque a impressão é a de que o ceticismo tomou conta do que resta de inteligentzia.





