Siglas e conteúdos
  Ontem o Paraná tomou melhor conhecimento do que é e o que pretende o partido de Gilberto Kassab, prefeito de São Paulo, o PSD. Durante longo tempo foi o maior partido brasileiro e aquele que dava consistência ao simulacro de frente popular com o PTB e que por muito tempo manteve a hegemonia que alcançaria seu momento maior com Juscelino Kubitschek.
  Na verdade o que se tenta sugerir é que o símbolo inspirador está na figura do ex-presidente e do clima que criou, de extrema euforia na ideia-força dos cinquenta anos em cinco. Também foi pensando nisso que Itamar Franco, que por ser mineiro conhece o imaginário da terra, falou em refabricar o fusca, o que na verdade visava ‘‘recriar’’ o pique do final dos anos 50, século passado.
  Nominalmente o PSD, criado por Getúlio Vargas, seria social-democrata, ordem que busca o welfare state, o estado do bem-estar social, como se vê ainda hoje notadamente na Europa. O Brasil desse tempo era rural, a esmagadora maioria da população estava no campo e por isso Getúlio bolou o Partido Trabalhista Brasileiro para o nascente proletariado urbano.
  Como vivemos um tempo anti-ideológico e dominado por um pragmatismo, em que não há espaço para utopias, a busca é rigorosamente utilitária e por isso essencialmente fisiológica. Essa é a marca da maioria dos partidos, mesmo daqueles que até outro dia pregavam a ruptura e a revolução e que encontra no restaurado PSD talvez a expressão mais ajustada.

O fim da história
  Quando Fukuyama, num documento acadêmico, falou no fim da história como sequela natural da derrubada do muro de Berlim, talvez estivesse detectando o último capítulo da ideologia nos estertores da Guerra Fria. A pauta dos doutrinadores passou a não comportar variáveis em torno da luta de classes, mas de sucedâneos para discutir o ajuste da sociedade a uma crítica de sua conformação em termos de valores, de axiologia, mais abrangentes. Uma delas é a do ambientalismo como fator crítico do capitalismo e um dos maiores e dos últimos ideólogos do Brasil, Leonardo Boff, a introduziu ao lado de um retorno ao misticismo. No debate recente em torno do Código Florestal ficou demonstrado que a bancada do agronegócio é tão forte nas convicções, argumentos e capacidade de mobilização como a dos católicos e evangélicos nos embates de ordem moral e religiosa, posto que a sedução da ecologia seja fator agregador de primeira ordem.
  E é nos debates de questões radicais como essas e a do respeito às diferenças sexuais (a vitória no caso da união de gays se deveu ao STF) que se vê a enorme distância no alinhamento dos partidos e dos seus programas a uma doutrina que abranja as preocupações de hoje, ainda que a sociedade continue desigual e com desníveis deprimentes. O compromisso socialista, o de batalhar pela igualdade, é agora tabulado nas políticas compensatórias como a das bolsas e agora a do Brasil sem miséria que substitui o desgaste daquele plano contra a fome e do lado liberal há um empenho para mostrar que essa tese não significaria a desregulação pretendida na aparente vitória do neoliberalismo.

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