Um pouco de nostalgia

Quando vi o radicalismo das posições no debate do Código Florestal lembrei da fase romântica do ambientalismo. Lá pelos anos 50 e 60, século passado, vi a luta de idealistas como a do professor Raul Rodrigues Gomes na defesa de um parque nacional no Marumbi ou ainda do deputado Edvino Tempski pela integridade dos mananciais da Serra. Quando do represamento do Rio Capivari entramos em batalha com os tecnocratas da Copel e da sua subsidiária, Eletrocap, em torno das cautelas com relação ao ambiente. Escrevi nesta Folha um artigo em que botava em xeque megawats com lambaris. Tempos depois houve tanto no Capivari-Cachoeira como na usina hidrelétrica de Salto Capivara abalos sísmicos e na primeira tivemos de saída invasão de algas na bacia de acumulação que a Copel precisou encarar com técnicas de oxigenação com bombeamento, ação química e biológica.
Houve ainda no Capivari - e isso só foi referido num congresso de grandes barragens- um acidente, abalo tectônico, semelhante ao havido em Salto Capivara em função de acomodação geológica de camadas. No norte houve rachaduras em função do sismo. No do Capivari, por ser área de demografia rarefeita e sujeita às ''cabeças d'água'' e também aos estampidos da fábrica de dinamites da CR Almeida na Br 116 o fato só veio a público em função de uma referência ao congresso de barragens. Nem instituições que fazem o controle sismográfico se manifestaram.
Hoje o ambientalismo é coberto por organizações profissionalizadas, nutridas por Ongs, algumas delas com agudo senso do espetáculo como o Green Peace. Com tudo isso levaram uma goleada na disputa do Código Florestal. E em lugar de ameaçarem a humanidade com o juízo final deveriam exercer autocrítica para ver em que falharam no convencimento das posições radicalizadas e buscar outro rumo na tramitação do Código Florestal no Senado.

Vila Velha

Em 1961 Ney Braga era o governador e dava os retoques finais da Br 277 que Lupion construíra e que atravessava o Parque de Vila Velha. Criou um grupo de trabalho do qual fiz parte juntamente com o engenheiro sanitarista Armando Júlio Bittencourt, o arquiteto Romeu Paulo da Costa e o artista plástico Nilo Previdi. Objetivo era definir serviços, delegá-los, e indicar formas de ecoturismo que não degradassem. Na ocasião o bispo de Ponta Grossa enviou um expediente pleiteando que houvesse um templo religioso e uma obra social e coube a mim o parecer jurídico em que me baseava em dispositivos do então Código Florestal que considerava um parque ''floresta remanescente'' e por isso inalienável e ainda por cima pelo Estado brasileiro não ser confessional a concessão inviável a uma confissão religiosa. Tanto o governador como o seu secretário de Agricultura queriam alterar o parecer, mas o bispo de Ponta Grossa valeu-se de um expediente mais eficaz: visitou o Papa João XXIII e fê-lo abençoar uma santinha que seria ''Nossa Senhora de Vila Velha''. Em caravana o bispo e o governo foram até lá e ''uti possidetis, uta possideatis'' firmaram o domínio. Tínhamos sugerido -e essa deve ser a primeira ideia no mundo- a construção de um templo ecumênico para servir à causa deflagrada pelo Papa. Ficamos como os ambientalistas ontem. Aliás um absurdo à vista: Vila Velha fazia experimentos com o hoje abominado pinus.

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