Um pensador, urgente
  No governo Lerner havia um local para reuniões de ‘‘brain’’ chamado de Chapéu Pensador. Se o chapéu pensava não seria de espantar porque alguém ou alguma coisa no governo tem que fazê-lo. Apesar de tudo o que se disse na campanha eleitoral, e ali o pensamento inexiste porque substituído pelo ligeiro código dos marqueteiros, não há um ordenamento, uma proposta de ação, centrada num diagnóstico de profundidade, com as diretrizes para tocar o governo.
  No governo José Richa se falava muito em ‘‘diretrizes’’ e havia até excesso de preocupação em definir linhas de atuação em cada um dos setores. Também nas propostas de Alvaro Dias havia resposta para tudo quando se sabe que um mínimo de racionalidade exige definição de prioridades. Me lembro que para um catatau de mais de 400 páginas Belmiro Valverde, em poucas linhas, anotou que aquilo que parecia ‘‘tudo para todos’’ poderia redundar num ‘‘nada para ninguém’’. De fato, toda a problemática lá estava e com ela a solucionática no estilo Dario Peito de Aço.

Metafísica e meta física
  Quem pensa o Paraná hoje dentro do governo? É um mistério porque os quadros atrofiaram e infelizmente substituíram o filósofo, o que pensa, a engenharia de valores, pelo ‘‘marketing’’ que tudo reduz a ‘‘teasers’’. Os bons governos tiveram seus preceptores: Manoel Ribas com Wilson Martins, Lupion com Orlando Soares Carbonar e Renê Pereira Alves; Munhoz da Rocha com ele mesmo e mais Joaquim de Mattos Barreto, Temístocles Linhares; Ney Braga com Ernani Reichmann, Alípio Aires de Carvalho, Norton Macedo, José Augusto Ribeiro; Paulo Pimentel com Samuel Guimarães da Costa e assim por diante e com uma tendência de queda pela espetacularização do processo eleitoral, que vê um pensador como um romântico-delirante e entregando-se aos encantos da praxis publicitária.
  O pensador, versado em epistemes, sabe diferenciar a metafísica das metas físicas, atribuindo-lhes pesos muito específicos que o marqueteiro, com sua ligeireza e suposta eficiência, tira de letra como se fosse a mesma coisa.

O que ficou
  Roberto Requião governou o Paraná por três períodos. Apesar da intensidade das polêmicas – no primeiro ainda tinha alguma humildade na correlação de forças que o apoiaram, mas no segundo e terceiro predominou o culto à personalidade – ficou algum pensamento, a não ser o varejo nacionaleiro e uma pregação estatista negada pela circunstância de que tudo hoje é concedido e terceirizado? Do seu antecessor, Jaime Lerner, houve ao menos uma ruptura séria em torno da dependência relativa a São Paulo na questão das montadoras, quando deixamos de ser uma economia de complementaridade dos paulistas.
  Quem se habilita a esse papel, o de pensar, no governo atual de Beto Richa – que encontra escombros na saúde, educação e segurança a todo instante – fez as promessas que a superficialidade dos marqueteiros sugeriu e a máquina esclerosada e cada vez mais ineficiente o oprime? Um pensador, urgente, antes que tudo vire repeteco de impotência e perplexidade.

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