LUIZ GERALDO MAZZA
Forma e conteúdo
A questão do conflito forma-conteúdo é algo que vai além da arte, onde o tema é mais batido, e passa a abranger outras manifestações humanas em que sempre as permeiam valores estéticos opostos à prática. Comum na arquitetura com o choque do estético-funcional e no marketing, especialmente nas artimanhas da publicidade, em que o objetivo da venda é o que vale, pois um anúncio bem concebido artisticamente pode ganhar prêmios, mas não promover com a eficácia esperada o sucesso no mercado.
Em propaganda há uma questão curiosa: a de que nem sempre a arte final é tão bem concebida como o lay-out. Da mesma forma a distância entre concepção e execução num saque arquitetônico ou de engenharia.
Dessas virtualidades não escapam os partidos políticos seja na construção das siglas ou ainda nas variáveis gráficas e cromáticas e também no que se refere à semântica, isso é o significado, que vai ganhando historicamente no correr do tempo. O PT, muito bem definido na estrela, ainda que próxima daquela que identifica a Texaco, carrega em sua origem mais remota um assento socialista e até revolucionário que com o exercício do poder foi amainando e é claro gerando defecções como a do PSTU. Para tornar-se palatável teve que tirar o ferrão da vespa. De qualquer maneira é o mais socialdemocrata dos existentes no Brasil e com uma vantagem sobre o PSDB, a de ter uma forte linha obreira em função não apenas do seu líder maior como também dos compromissos com o sindicalismo e movimentos sociais.
Mimetismo ideológico
É uma constante no Brasil a criação de siglas que no nascedouro teriam um compromisso com a esquerda, caso dos ''sociais'' e trabalhistas. O PSD, agora recriado oportunisticamente pela corrente do Kassab, foi inventado por Getúlio Vargas e a nomenclatura disfarça uma adesão socialdemocrata, uma contestação ao comunismo implantado décadas antes e ainda a busca do Welphare State, isso é o Estado do Bem-Estar social. Surgiu para cobrir os interesses de uma sociedade eminentemente rural, já que a esse tempo mais de 80% da população estavam no campo e para os restantes urbanos Getúlio criou o PTB para expressar o nascente proletariado das cidades. Uma sigla com essa composição só poderia ter caráter conservador, embora nos anos cinquenta com a pregação fortemente desenvolvimentista gerasse expressões como Juscelino Kubitschek.
Charme à sinistra
Mesmo uma estrutura de poder mais à direita como a do PRN de Collor buscou alento em doutrina e referenciais à esquerda com o sociólogo Hélio Jaguaribe e o crítico de arte Melquior fazendo alusão ao ''liberal socialismo'' na verdade um esforço para conferir essa tonalidade à eclosão neoliberal. Na realidade, Collor, em sua curta permanência no poder, ''vendia'' a imagem de herói com suas incursões aéreas ou as atléticas e tentava ser um governo de eficiência quando rompeu com a inércia aos bloqueios à industrialização especialmente a das montadoras com a pregação contra as ''carroças''. Novamente a questão da forma e conteúdo não tinha simetria.





