LUIZ GERALDO MAZZA
Itinerário arriscado
Quando o Brasil vai bem, o nível de emprego é elevado, baixa a ociosidade da indústria, governos também vão bem. Há uma simetria clara entre uma coisa e a outra: mercado aquecido, euforia, consumo em alta, governo bom. É o conceito mais elementar que se sobrepõe à investigação do nível de credibilidade. A taxa de inflação de 12 meses passa dos 6 pontos e isso aciona o alerta e todo esse clima positivo pode desandar.
Além da questão macro há a de traço regional a preocupar, pois não se viu - ao menos até agora - qualquer movimento governamental que indicasse ativismo, o que explica as notas baixas, por notória falta de iniciativa, atribuídas aos cem (seria sem?) dias de Beto Richa.
Neste fim de semana deu para perceber que o governo estadual está um tanto quanto imobilizado por não ter até agora um diagnóstico consistente da situação herdada que se acredita ruim, seja pelas indicações do secretário Luiz Carlos Hauly, um tanto discretas, de que o cenário financeiro é dramático, ou pelas insistentes negativas de atendimento a demandas de algumas categorias profissionais, o que se acirrará nos próximos dias com a aproximação da data-base das categorias funcionais.
Varejo & atacado
A rápida dispersão da atmosfera de euforia, que dominava o governo, diante das revelações incompletas sobre a situação financeira, é que alimentou a perplexidade. Pensou-se na criação de fatos como alternativa quando o caixa é precário e o que foi elencado (programa de estímulo a investimentos, a questão das aposentadorias de ex-governadores) não teve a ressonância desejada. Também a ausência de uma vocalização forte das deficiências encontradas como no caso tanto das finanças públicas quanto no da segurança, situação portuária, dá a nítida impressão que o horizonte do governo é obscuro e torna-se arriscada a interpretação prospectiva.
Mal no varejo do cotidiano e ruim no atacado das ideias-força para manter e adensar os laços de aproximação com o povo, tão fortes na eleição e nos dias que se seguiram e em aberto declínio nos primeiros dias de gestão, o balanço dos cem dias não poderia mesmo ser positivo, ainda que os exageros da oposição tachando o governo de concentrador e excludente não colem por excesso de cerebralismo retórico.
Ações imediatas
A moratória dos 90 dias nada acrescentou a não ser a manutenção de dívidas postergadas quando a resposta da situação financeira continua precária e a capacidade de manobra do setor é sabidamente limitada. Resíduos ainda da euforia da vitória impedem que a maioria dos setores do governo entenda a necessidade imperiosa, e para já, de um exercício de autocrítica seguido de uma proposta emergencial de superação dos fatores limitativos. O pior é que o regime de águas ameaça manter o sobressalto que atinge o Litoral na sequela dos deslizamentos e destruição parcial da infraestrutura. E o emergencial ganha tonalidades dramáticas quando não há como prever saídas permanentes.





