Ausência de representatividade
Apesar de teoricamente estar com dois ministros (o da Comunicação, Paulo Bernardo, e Gilberto Carvalho na Secretaria Geral da Presidência), o Paraná vive uma fase (ou seria uma era?) de baixa representatividade e pouca gente é emplacada ao mesmo tempo em que continuamos mal na partilha de recursos. Falta moral, autenticidade, peso intelectual às nossas lideranças, daí o apagão.
Se era impossível esse tratamento no ciclo neysta, pela capacidade de o Paraná produzir projetos e fazer circular ideias, tantos foram os ministros que tivemos, mais difícil seria ocorrer na gestão de Munhoz da Rocha que fez dobradinha com Getúlio Vargas em 1950 como Ney com Jânio dez anos depois.
Foi com Munhoz da Rocha, ministro da Agricultura, nos anos cinquenta, que deu para perceber a sua capacidade de intervenção no caso da Reforma Cambial em que levou a melhor sobre o paulista José Maria Withaker, ministro da Fazenda. E com ele recuperamos espaços ministeriais, primeiramente com Aramis Atayde na Saúde e com sua nomeação para a Agricultura, aliás numa articulação ousada que pretendia alçá-lo à vice-presidência da República.

O doutrinador
Bento fazia e dava suporte às suas ações com doutrina: assim a decisão de fazer obras do Centenário (Centro Cívico, Teatro Guaíra, Biblioteca Pública que consolidavam a capital política) eram acompanhadas de feitos como o do ataque ao Plano Rodoviário que fez os fundamentos da integração e no qual a ligação asfáltica de Londrina-Cambé-Ibiporã era simbólica num tempo em que essa matéria prima era importada. Uma das pregações constantes era a de fazer as coisas com a devida perspectiva de escala para o futuro. Como um dos maiores oradores do país (na série Perfís Parlamentares 32 da Câmara Federal dá para ter uma idéia de sua produção como na Constituinte de 1946 em que obteve a reintegração do Território do Iguaçu ao Paraná e Santa Catarina) fazia observações apropriadas sobre o caráter nacional. ''O complexo de esperteza estendeu-se por todo o corpo da nacionalidade. Suga-lhe todas as energias. Fatos muito simples devem ser, na sua divulgação, enfeitados com versões de grandes complicações, porque os espertos não acreditam nunca nas coisas simples. Uma das manias da esperteza é enxergar longe, devassar intenções ocultas nas coisas mais simples. O esperto complica tudo. Não aceita a versão pública dos acontecimentos. Advinha intenções, ainda quando os fatos, de tão claros, não admitem outra interpretação. A esperteza anda sempre descobrindo desvãos secretos, que não se divulgarão nunca, e só os espertos, só os sabidos perceberão, ainda que contra a evidência. O complexo da esperteza conduziu a esta conclusão monstruosa: só acreditar na honestidade, quando a desonestidade é materialmente impossível.''
Aliás no Rio de Janeiro se generalizou o uso com sotaque carioca do ''esperto'' que dá conotação forte, semântica, à expressão. Num dos seus discursos Bento concluiu: ''Ponha-se a nu a esperteza. Mostre-se a degradação que representa nas relações humanas; o desassossego e a inquietação que traz à vida nacional. Sejam os brasileiros incansáveis no combate à esperteza. Não a tratem com carinho, como é frequente. Convençam-se de seu aviltamento.'' Era um tempo diferente em que as pessoas pensavam.

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