LUIZ GERALDO MAZZA
Mudança de escala
Aos nostálgicos que se referem aos políticos do passado como incomparáveis com os do presente, costumo lembrar um detalhe importante: a escala dos negócios públicos, estradas, aeroportos, hidrelétricas, algo inimaginável naquele passado mais tranquilo. Faz-me lembrar de um filme de Dino Risi, ''Uma vida difícil'' (que não tentou ser paródia ou contrafação da ''Doce Vida'' de Fellini) em que pela vez primeira no mundo ocidental o herói é mais do que um comunista, um anarquista, na pele do jornalista Alberto Sordi.
Há situações curiosas que mostravam o engajamento do repórter: primeiro saúda a chegada dos ianques com a derrota de Mussolini, mas depois temendo que eles permaneçam tasca na manchete ''Fora os americanos''. Segue-se o plebiscito na Itália entre República e Monarquia e um ricaço convoca o jornalista para um papo, na verdade uma cooptação, e mostra que a linha do jornal facilitava a saída de capitais e se propõe a dar uma grana se aliviasse a barra. O jornalista, ao ser perguntado, fala com orgulho do seu salário e o empresário diz que lhe daria por dia aquilo que ganhava mensalmente. A proposta abala e no meio da noite, ao lado da mulher, o jornalista promete acabar com o milionário. Na sequência é condenado por crime de imprensa.
O caráter do personagem é posto à prova por uma questão justamente de escala, imnprevisível no seu universo. Isso é o que o levou à insônia, posto que ficasse claro desde o início que não afrouxaria.
O pragmatismo
E como a democracia ficou cada vez mais caracterizada como a representação dos interesses e o volume dos negócios públicos atingiu dimensões ciclópicas a corrupção passou a ser um ingrediente inevitável. Daí o pragmatismo dominante e a habitual descrença nos que fazem o marketing da moralidade como nossos ex-governadores Alvaro Dias e Roberto Requião e que de repente aceitam com maior naturalidade a aposentadoria que haviam abominado para tirar José Richa da disputa eleitoral de 1990.
Objetivamente ao afastar-se da bandeira ética, que até um tempo teve condição para desfraldar, o Partido dos Trabalhadores apenas se mostrou ajustado à noção de escala e dos interesses que gravitam no poder quando abjurou o socialismo que estava no seu DNA e no momento em que deu escala máxima aquilo que seu ex-adverso PSDB fazia em dimensão menor, tal qual ocorreu com o caso do mensalão. O dos tucanos, pode se dizer, era um mensalinho.
A Constituição de 1988 mostrou como agem os ''lobbies'' de várias extrações, ruralistas, ecologistas, grupos religiosos e empresariais e tivemos inclusive uma cena fortíssima do líder da UDR, Ronaldo Caiado, conseguindo, no momento em que se debatia a reforma agrária, que se retirasse do ar na produção da Globo a referência aos sem terra introduzida em ''O Pagador de Promessas'' de Dias Gomes e que obviamente não constava do original, premiado no cinema e no teatro. Uma forma de contestação adequada à sociedade de massas, embora o direito inegável do autor em ''atualizar'' o drama do acesso à terra. Aí também a visão da mudança de escala na percepção da força comunicativa da tv que desequilibra tanto quanto as políticas de discriminação positiva como a das bolsas que FHC criou e Lula redimensionou.





