LUIZ GERALDO MAZZA
Saída latina
Foram tão exageradas as homenagens que recebi por meus 80 anos que me vi obrigado a recorrer ao latim e ao clássico Horácio na recomendação para moderar as coisas, o ''modus in rebus''. Amor ou celebração demais sufoca. Após o Concílio a língua tida como morta perdeu expressão exatamente pelo não uso ainda que se declame ''Agnus Dei que tollis pecata mundi'', Cordeiro de Deus que tirai os pecados do mundo.
E como falávamos muito das implicâncias de uma parte dos jornalistas contra o texto chapa branca, apesar da relevância desse espaço no mercado, e da pretensão de alguns em torná-lo dominante, lembrei de Virgílio, autor das Églogas e da obra maior ''Eneida''. Como qualquer escriba oficial, Virgílio foi contratado pelo imperador Otávio Augusto para escrever o trabalho que visava consagrar Roma. Poderia tranquilamente ser o padrinho dos jornalistas oficiais.
Certa ocasião num bar da Praça Santos Andrade encontrei o Paulo Leminski e de repente há, na conversa, uma referência a Virgílio. Automaticamente declamei ''Cano arma virumque profugus ab oris Trojae''. O polaco, ligadíssimo nessas singularidades, só faltou me chamar de latinista enrustido, o que contestei dizendo que aprendíamos a língua obrigatória no ginásio e valíamo-nos desses conhecimentos para o vestibular de Direito. Um dos textos fortes era o ''De Bello Galico'', a incursão militar sobre a Galia. Lembro de uma situação muito curiosa com um aluno que traduziu o complemento circunstancial de lugar ''in aperto loco'' num lugar aberto como ''num aperto louco''. O professor, radical socrático, partiu para a ironia ao perceber que o absurdo da tradução não era invalidado porque quem está num lugar aberto nas faldas da montanha, tão vulnerável às armas inimigas, efetivamente se encontra num ''aperto louco''.
Em forma de verso
Da mesma forma que os professores primários ensinavam o beabá pelo efeito da eufonia, também os de latim valiam-se do recurso para fixar a memória. João Mazzarotto, meu professor por duas vezes, costumava lembrar com a voz de padre: ''No meu tempo de criança aprendia-se os pronomes em forma de verso''. Seguia-se o efeito sonoro, onomatopaico, do ''qui, quae, quod, cujus, cui''. O som mais se aproximava de emissões de marrecos. Quando flagrava um aluno colando ou desatento tascava ''se estude, estudes tibi'' se estudas, estudas para ti e acentuava ''Rui Barbosa, o sol nunca o apanhou na cama''. Do fundo da sala o mau caráter bagunçava ''porque dormia de janela fechada''. Dos mestres da área o mais duro de todos, ainda que compenetrado, era o Zavadiski. No fim da aula anunciava com seu tom eslavo: ''hoje vamos ter prova relâmpago'', 20 perguntas com respostas em cinco minutos. Uma loucura. Perguntas difíceis como a dos verbos que pedem acusativo com infinitivo ''Constat Roma conditam esse a Romulo''. Isso é ''Consta que Roma foi construída por Rômulo''. E para arrematar, quando a ignorância era a mais absoluta, lá vinha a frase castigadora ''Praefero mortem honestam quam vita torpe''. Prefiro a morte honesta do que a vida torpe. Modus in rebus, não mereço tanto.





