O conflito salvador

É dialético o acomodar-se logo depois da ruptura. Como o arco ''tangendo e volgendo'' de Dante, o Alighieri, não o Mendonça. O clima de inércia, de paz dos cemitérios, que marca a existência paranaense só com sangue (vide a guerra civil, a federalista de 1894, o cerco da Lapa, a beligerância entre maragatos e picapaus) ou algum trauma institucional como o das ''revoluções'' de 1930 e 1964 é afetado. Segue-se com dificuldade a acomodação, tanto que nas áreas tradicionais o divisor daqueles eventos persistiu por quase 50 anos.
O motor da mudança, do parto da história, como diziam os marxistas e anarquistas, tal qual os abalos tectônicos na geologia se manifesta num primeiro momento sugerindo o juizo final e depois se rendendo ao ''juízo afinal'' aquele que se manifesta nas identidades de classe. Há alguns sinais de conflito em coisas aparentemente singelas como os contratos municipais do transporte coletivo e da limpeza pública: no primeiro a reação do patronato que decidiu não querer mais os acertos como o da concessão de 3% da massa bruta de dinheiro do sistema ao sindicato dos motoristas e cobradores e também o da entrega de cestas básicas ou de seguro-saúde botando dinheiro vivo na mão dos sindicalistas e no segundo o da denúncia de uma licitação dirigida.

Fomentando a ruptura

Todas as pendências paranaenses como as decorrentes das investigações no Legislativo mostram que a maioria dos políticos deseja, o quanto antes e a qualquer preço, o fim da devassa pela evidência de que envolve por ação ou omissão a elite de todos os poderes de Estado. E isso é visível na forma como se comporta o governador que evita, a todo custo, a beligerância com os derrotados e ao contrário os convoca a partilhar da gestão como se fez com o ex-líder de Requião, Luis Claudio Romanelli. Num momento em que a sociedade, a menos comprometida, é claro, gostaria de ir fundo nos desvios da administração anterior (e isso não se refere apenas aos portos e também às patologias como a das tvs laranjas bem como ao chamado passivo judicial, de cuja extensão e profundidade não se tem ideia) os sinais são de concórdia e tolerância. É que os interesses de classe se enraizam.

Ações, só externas

Dá para perceber claramente que nunca a Procuradoria de Justiça, o Judiciário de um modo geral e o Tribunal de Contas hostilizaram o governo, embora houvesse razão para tanto. É uma tradição que apenas interventores externos entrem em ação como a Justiça Federal, o Tribunal de Contas da União e a Polícia e Ministério Público federais, como se deu nos casos da Operação Gafanhoto e agora nas irregularidades do Porto. É por isso que o Gaeco é olhado como inconveniente por ter rompido a regra convencional do compadrio. Para os cultores do sistema a ação desse setor do Ministério Público tem um certo sinal de traição. Dá para lembrar que o setor, quando denominado PIC, Procuradoria de Investigações Criminais, sofreu atentado à bomba.
Urge que alguém faça a ruptura. É o único jeito de a sociedade avançar, mesmo quando sua elite no poder resiste como se praticasse um ato de heroísmo e não de clara deserção.

mockup