Pouca fé
  O tom solene do ato de diplomação dos eleitos anteontem não mascara a baixa perspectiva que se tem das primeiras ações do futuro governo e as últimas do que se despede. A circunstância de ter sido pago o 13º salário do pessoal da ativa e mais aposentados e pensionistas (nada menos de R$ 700 milhões) não é suficiente para sugerir que as coisas estejam bem e tanto que Beto Richa, a despeito do tom conciliatório adotado, entende que a gravidade da situação, afirmada pelo próprio Heron Arzua, reclama uma auditagem nas contas.
  Como os governos tem vivido mais da propaganda do que de fatos incontestes (e o período, talvez ciclo ou dinastia, de Requião o ratifica) o público não tem uma exata noção dos fatos e dá às versões oficiais, como é da nossa tradição, o sentido de veraz, inquestionável, o que é desmontado na sequência como vimos na opereta bufa dos portos e dos transgênicos, uma palhaçada que vai nos custar os olhos da cara, isso sem falar na estupidez da ruptura de contratos como os da Usina a Gás de Araucária, dos sócios minoritários da Sanepar e a pior de todas na bravata do ‘‘baixa ou acaba’’ do pedágio, realmente um assalto mal combatido. Prova dessa frouxidão do público está na reeleição de Requião ao governo, mas indicando um pouco de reflexão nos votos para o Senado em que transparece um amadurecimento das consciências.

Uma analogia
  A cada observação cética que faço, os imantados do poder sugerem que não me desligo do passado. Uma pergunta aos londrinenses: dá para comparar gestões de Hugo Cabral, Milton Menezes, José Hosken de Novaes, José Richa, Wilson Moreira e Antonio Fernandes Sobrinho com a leva mais recente? É o que se pode dizer de gestões curitibanas de Ney Braga, Ivo Arzua, Saul Raiz, Omar Sabagg até o ciclo de Lerner, cuja atuação é presente em todos os que se seguiram por força da construção de uma cidade ideal, melhor como condicionante do que a de Tomas Morus, criador da Utopia e mártir da fé transformado em santo. E tanto que Beto Richa é um beneficiário desse modelo e respectivo marketing e com tais credenciais, um tanto quanto questionáveis, ganhou o governo. Também é inviável a analogia entre os governantes de agora, especialmente os do PMDB, com Ney Braga, Munhoz da Rocha e o próprio Manoel Ribas. Por sinal que um Canet Júnior tinha um programa assentado em ‘‘tecnologia apropriada’’, feita especialmente em 4 mil kms de estradas com asfalto subdimensionado. E é essa ausência de substância, de proposta que engaje a população, a carência mor.

Fragilidade do presente
  Na reinauguração do Palácio Iguaçu é impossível confrontar com o clima e os fatos que marcaram a sua inauguração em 1954. É verdade que tínhamos vivido no ano anterior a celebração do centenário, o Paraná projetado mundial e também nacionalmente com as centenas de congressos, feiras e eventos aqui tocados. Se não dá para comparar aquele estágio, ainda como civilização do café, com o que se dá no momento atual, o pior está na escassez de fé. Nos anos 60 com Ney Braga teríamos a arrancada para o desenvolvimento e a integração física. Dá para concluir que a idealização do passado é impositiva diante da claríssima impossibilidade de fazê-la com o presente.

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