LUIZ GERALDO MAZZA
Autofagia de novo
A pretensão dos derrotados da eleição regional, e vitoriosos na nacional, em criar dificuldades ao futuro governo é notória, indisfarçável, embora sempre dissimulada na linguagem de conveniência. Ocorre é que acusação semelhante é feita aos ganhadores de eleições regionais e que estariam se esmerando em criar dificuldades aos futuros mandatários do Brasil.
Como as desconfianças são recíprocas e se realimentam há todas as condições para um clima de exacerbação, de paranoia. E quando tal sentimento se instala é difícil contornar as dificuldades daí decorrentes.
Fala-se muito em autofagia no Paraná e a ela se atribui a base das nossas maiores dificuldades em sermos levados a sério. Ao contrário, nós temos uma sociedade que tende a arquivar e a metabolizar conflitos e não disposta a vê-los aflorar em plenitude. Num ordenamento assim, a autofagia seria um fator desencadeante de rupturas, de conflitos e acabaria sendo um bem.
Não agiu
Não deixa, no entanto, de ser chocante o fato de o governo Lula ter tido todas as condições para recuperar o comando da atividade portuária, aqui levada à temeridade com tolices idiotas como a de negar-se a tocar o terminal oeste, inclusive sem contrapartida estadual e a lançar-se na aventura burra da condenação dos produtos transgênicos ou a de opor-se a fazer a dragagem para garantir a via navegável. Tanto a agência reguladora, Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) como o Tribunal de Contas da União, por várias vezes, isso sem falar nos seguidos e alentados sinais da Capitania dos Portos contra a incúria estabelecida, pediram a intervenção nos terminais pela prática de iregularidades e, sobretudo, pela gestão temerária, aquela que levou empresários e cargas a outros portos.
Apesar das reações de operadores, de instituições como a Federação da Agricultura do Paraná (Faep) e a da Indústria (Fiep) e protestos parlamentares, o governo Lula deu cobertura a Requião para não ofendê-lo. Torna-se, portanto, extremamente ridículo o empenho daqueles, hoje na oposição regional, que calaram durante todo o tempo, e desejem agora a ruptura que deveriam ter feito no momento certo e quando os absurdos se multiplicavam.
Incidentes
Ao longo do tempo, fora a cruzada contra os transgênicos, derrotada pela realidade do mercado (mais de 90% do produto exportado é dessa origem e hoje mais de 65% da área cultivada é geneticamente modificada), tivemos outras claras manifestações de desídia como a explosão do silão no primeiro governo e a do navio chileno VicuÀa no segundo e essa condenação pelo Ibama das más condições de salubridade dos terminais contra os quais foram aplicadas multas no sentido da reeducação. Tivemos ainda a inutilidade ideológica do ''porto público'' em que tanto o terminal de álcool como o de fertilizantes caracterizam uma forma clara de privatização, o primeiro inclusive bloqueado por razões de segurança em seu funcionamento. Aliás, a legislação portuária não poderia deixar de levar em conta que os navios, os cargueiros, as mercadorias e os operadores não são públicos e sim privados como em todo o mundo.





