Um equívoco repetido
É comum no linguajar da política a referência desprezível às elites. Cansei de ouvir profissionais liberais - engenheiros, médicos, arquitetos - abominando, no linguajar primário da moda, ''azelite''. Ora qual é o país e qual a atividade, seja inclusive a sindical, que dispense elites?
Certa ocasião, na rádio, um diretor de revista do Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura fez um ar de deboche ao referir-se às ''azelite'' e não perdi a oportunidade para lembrá-lo que o Crea, que controlava o exercício profissional, já era de per si uma referência da elite, de estrato superior.
Um dos brasileiros que mais se ocupou com a temática foi Bento Munhoz da Rocha Neto. O papel das elites dirigentes nas democracias era uma das suas máximas preocupações e com ação muito mais complexa que nas estruturas totalitárias. ''Nada se compara à complexidade contemporânea dos problemas democráticos, que nasceu justamente do dever de respeitar um necessário pluralismo social. As soluções totalitárias são simplistas. Contornam dificuldades, eliminando-as e, frequentemente, extinguindo-as com violência e agressão''. Aliar liberdade e disciplina, preservando a individualidade de cada um sem ferir o pluralismo - marco das democracias - mas também não permitindo que o jogo político comprometa a eficiência.
''Só o homem de elite,'' - afirmava Munhoz da Rocha - ''o homem das visões globais, pode dar, a cada parcialidade e a cada setor especializado, sua amplitude exata. Preparar as elites, dar-lhes o sentido da época, a amplitude de ação, livre do domínio tirânico da multidão, eis um dos pontos nevrálgicos de nossa civilização.''
Força transformadora
Munhoz da Rocha acreditava na força transformadora das elites como grupos qualificados para dirigir: família, sociedade, escola, fábrica. Quem se destaca por ser melhor, onde quer que atue, e extrai sua força na exemplaridade é o referencial e por isso pregava o inconformismo diante da mediocridade e não aceitava a tirania da vulgaridade. Não poucas vezes ouvi dele, quando governador, nos discursos do Centenário da Emancipação Política em 1953, a resistência oferecida ao cortejamento servil das multidões, uma das pragas brasileiras a que a maioria dos políticos presta vassalagem.
Um dos bons momentos é o referido ao ''discurso formoso'', a última degradação da eloquência''. ''Do vício nacional do formoso discurso, fica a impressão dominante da absoluta falta de autenticidade. E o trato de problemas básicos traz, em consequência, essa marca... é um estado de espírito que se divulgou, definido pelo formalismo, pela aparência, pela exterioridade. Sepulta o espontâneo, o humano, o autêntico. Foge da vida, de suas exigências e de seus dramas, pela porta de uma falsa estética.''
Dá para confrontar essa linha conceitual, a episteme, com o que se diz hoje nos parlamentos e nas campanhas políticas como essa mais recente? O risco de idealizar o passado, como tenho concluído, é timbrado pela impossibilidade de fazê-lo com o presente.

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