A primeira foi melhor
Acreditava-se que com a consolidação do processo democrático teríamos, cada vez mais, eleições apuradas. E, principalmente, diante do fato de que os três principais candidatos tinham, à sua maneira, perfil de esquerda. Isso no país é relevante porque a visão de ''direita'', aqui é rejeitada no maniqueísmo da moda como se no mundo civilizado, ao menos bem melhor que o nosso, como o Chile, por exemplo, ela não fosse no momento dominante. Ocorre que a direita daqui ou é encabulada ou só falta usar símbolos nazifascistas.
Há uma espécie de falta de matizes como ensinava o filósofo neotomista Jacques Maritain, tão cultuado aqui no Paraná por Munhoz da Rocha e que teve no filósofo paranaense Ubaldo Puppi (diretor da Biblioteca e secretário de Educação quando Requião era prefeito de Curitiba) um assistente de muita visão. Por sinal que a direita empresarial é Lula hoje desde criancinha por causa da euforia dominante e das facilidades em crédito que se tem proporcionado, isso até a hora da ressaca que pode vir a qualquer momento.
A primeira eleição brasileira, aquela que botou Collor diante de Lula e em que a Globo manipulou, desnecessariamente, o debate final, tivemos múltiplas alternativas: além dos dois tínhamos Leonel Brizola, Mário Covas, Afif Domingos, Ulysses Guimarães, Aureliano Chaves, Roberto Freire entre outros e até o nosso Affonso Camargo que concorria pelo PTB, Paulo Maluf, Gabeira e o incrível Enéas Carneiro. Depois da frustração sequencial das ''Diretas Já'' mais a eleição de Tancredo que não tomou posse, da ilusão do Plano Cruzado, tínhamos carência de uma ruptura.

Opções múltiplas
Sob qualquer aspecto que se analise aquele processo, ele era revelador de uma variedade de opções doutrinárias e ideológicas bastante consistentes e, afinal, traduzidas num corpo teórico. Brizola e Covas, por exemplo, concorriam com reais possibilidades. Quem decepcionava, de forma assustadora, era Affonsinho que assessorado pelo ator Tião Macalé (''Nojento'') dava uma de Xuxa mandando cartas aos ''baixinhos''. Direita, centro, esquerda estavam melhor definidos no espectro que ia do infravermelho ao ultravioleta. A agenda vencedora, a de Collor, em que se identificava no marketing como herói de cinema e ameaçava acabar com todos os marajás, foi neoliberal e até hoje, apesar das negativas dos governantes, dá conteúdo ao sistema posto em prática, embora o fingimento de um suposto combate à privatização. Qual o espaço privatizado que teria sido devolvido ao Estado? Única operação, ainda não muito clara, é essa de um novo modelo para exploração do petróleo e o gás do pré-sal.
Dois candidatos de perfil assemelhado, de partidos com a mesma tonalidade socialdemocrata, chegam agora às finais, mas numa disputa inteiramente deturpada pelos exageros marquetológicos e até canibalescos. Os disputantes, guiados pelos cordéis da propaganda, em nada melhoraram o nível da eleição e dos eleitores e conseguiram a façanha incrível de trazer aspirações religiosas de caráter retrógrado e da cartilha do integrismo.

mockup