O medo da verdade
A preocupação dos candidatos presidenciais em não mexerem com melindres de natureza moral e religiosa chega a ser chocante e transforma todo o debate numa farsa, numa burla. E de repente parece que nada aprendemos com o longo sacrifício da ditadura e que estaríamos pouco dispostos a fazer com que o povo se libertasse de tanto primitivismo como se vê na discussão sobre o aborto. O assunto é tratado com superficialidade sobrepondo uma questão de fé, afinal respeitável, mas nem por isso impositiva na organização social, à gravidade de um problema de saúde pública na terceira causa de mortalidade materna, como se esse fato estatístico fosse desprezível.
Surpreende, por exemplo, a disposição de José Serra em defender a união civil de homossexuais em meio a tantas negativas. E bastou que ele firmasse posição e que não abrangia o casamento, por esse se tratar de um sacramento e portanto do campo religioso para que houvesse reação de setores sociais deturpando o exato sentido das suas colocações, talvez próximas das adotadas pela senadora eleita de São Paulo, Marta Suplicy, sexóloga e militante das paradas gays.
Já comparei a resistência à descriminalização do aborto - por sinal ponto do programa do Partido Verde, desde 2005, com o qual a Marina da Silva não concordava- aquela que se estabeleceu no Brasil nos anos 50 e 60, século passado, relativamente ao divórcio pela santificação da ''indissolubilidade do vínculo matrimonial''. Mesmo na eleição de 1950, que erigiu a dupla Getúlio Vargas-João Café Filho, a Liga Eleitoral Católica, LEC, empreendeu campanha violentíssima contra mais ao vice do que ao cabeça de chapa por sua atuação como sindicalista no Rio Grande do Norte, tido como agnóstico.

Mentira sistêmica
Essa obsessão em não mexer em temas que tenham qualquer conotação religiosa empobrece a campanha eleitoral e transforma os participantes em atores a serviço da mentira. O pior é que quando um dos candidatos, caso do Serra, percebe que adversária é golpeada pelo tema passa a ungir-se como se fosse um beato para cortejar o fundamentalismo dos fanáticos. Essa aceitação da ''persona'' artificiosa acaba sendo tida como válida como de resto o PT e sua coligação fazem dessa questão, também falsa, da privatização como se fosse um mal quando não se viu, além do caso da Petrobras e de sua capitalização em função do pré sal, nada que indicasse no governo da União empenho real em reestatizar aquilo que passou pela decantada privataria.
Abre-se caminho para uma superficialização do debate eleitoral como se a conquista desses estratos da população fosse a mais relevante das causas. Obviamente a pobreza da nossa cultura política facilita a despolitização e torna inútil aos que realmente tratam dessa ciência ficar lendo textos de Hannah Arendt que tanto se dedicou ao emprego sistemático da mentira e de sua enorme contribuição aos autoritarismos de toda ordem. Abre-se caminho para a pior das traições, a traição intelectual, em favor dessa mancha oleosa do populismo que infesta o país e é uma tonalidade afetiva da nossa política que tanto nos degrada como processo civilizatório.

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