LUIZ GERALDO MAZZA
Políticos e profissionais
Quando me referi ao fato de que tivemos em 28 anos, de 1982 até agora, nada menos de quatro famílias disputando o poder (Requião, Richa, os Dias e Jaime Lerner), realcei que, a despeito da modernidade estrutural do Paraná, os enlaces oligárquicos se projetam na representação política. Desses quatro personagens o menos político deles, aparentando até a condição de uma espécie de ''estranho no ninho'', seria Jaime Lerner, consagrado muito mais pelo que fez em Curitiba. O diferencial está no exercício de uma profissão liberal, algo que não ocorre com os demais e faz do ex-governador a figura de maior expressão do Paraná em escala nacional e internacional.
Seus méritos decorrem mais das suas aptidões, da sua capacidade de pensar e propor, do que do seu alinhamento como líder partidário até porque passou por vários partidos, inclusive o brizolismo, e chegou também a ser a maior expressão regional do PFL, do PDS e PSB.
Os demais disputantes desses pleitos dependem da atividade política, pois não têm credenciais de profissão fora daquele exercício. A tonalidade dominante em Beto Richa e que o levou à vitória decorre de sua condição de beneficiário de um condicionamento de longo prazo - a construção social da realidade - e que está permanente em todas as eleições. Apenas uma vez essa pirâmide esboroou: foi em 1985 quando esse ideário acumulado enfrentou um grupo de forças em que se destacavam José Richa, Maurício Fruet, Alvaro Dias, Canet Júnior, Affonso Camargo e quando a oposição ao sistema (de ideias, psicossocial) ganhou a luta com Roberto Requião, aquele tempo mais contido e dependente.
Desafio persiste
O desafio persiste: como superar essa identificação de Curitiba com uma corrente frutuosa e que se de um lado a estimula à autoestima de outro, como descompensação dialética, a torna conformista? Beneficiários de uma lavagem cerebral que virou doutrina são todos de Lerner, como força geradora, passando por Rafael Greca, Cassio Taniguchi e, finalmente, Beto Richa. O que saiu do grupo, Rafael Greca, acabou mal depois de ter obtido votação recorde como deputado federal o que facilitaria a sua ida ao Ministério do Esporte e Turismo. Aquilo que o beneficiou na hora de sair candidato a prefeito e contra a vontade do Lerner, que preferia Taniguchi a ele, o marcou como tatuagem por rompimento com o grupo originário.
Houve um momento na eleição recente, em que por uma questão oportunística, Beto Richa quis negar essa raiz de vinculação ao ex-prefeito e ex-governador supostamente para não passar por privativista, aí como sempre na lembrança do saneamento e venda do Banestado ou na tentativa de leiloar a Copel que fazia parte de um programa e de uma estratégia do governo de Fernando Henrique Cardoso, cabeça do seu partido, o PSDB.
Qual dos nossos políticos teria a liberdade de movimentos no mercado em suas palestras e estudos de consultoria como Lerner e cuja essência não fosse operação de lobby que normalmente se dá com os que deixam o poder ou ao menos a representação parlamentar? A carta de Lerner dispensando richistas e osmaristas de cultuá-lo é uma peça de fina ironia, das melhores do processo.





