O PT, até o ano 2000, ainda era um foco de resistência à corrupção. Aquele tempo essa bandeira já estava um pouco tisnada com as experiências municipais e estaduais. Aos poucos o pragmatismo evidenciou que o estandarte era uma farsa, tal qual o discurso ético dos políticos e ganhou o apogeu com aquelas revelações de 2005 na esteira do compadrio mensaleiro.

Naquele instante um dos fundamentos, que distinguia o partido das demais siglas, foi para o lixo. Da mesma forma que a lapidação interna na direção do centro e da direita escoimou do texto programático qualquer referência ao socialismo, uma das raízes originárias da organização, chegou-se finalmente a outros recuos como o da denúncia do monopólio da comunicação e agora o da questão de saúde pública, do aborto.

Como se atribuiu a queda dos votos de Dilma Rousseff a uma suposta rebelião de evangélicos, nem todos pentecostais, imediatamente se pensou, outra vez, em mexer no programa na parte relativa à descriminação do aborto, flagelo que atinge milhões anualmente. Por isso que os mais autênticos foram saindo aos poucos como também os que não aceitavam o patrulheirismo.

O oportunismo é incompatível com a boa doutrina e principalmente quando, por meios sutís ou escancarados, procura mimetizar as coisas, dissimulá-las. Na Itália, mesmo com o Vaticano ao lado, o aborto é aceito como na maioria dos países civilizados e no Brasil é mal resolvido pelas duas formas, o necessário e o legal, o primeiro para salvar a vida da paciente e o segundo quando a gravidez resulta de violência sexual. Para botar condimento na polêmica, o deputado André Vargas lembrou que José Serra implantou a ''pílula do dia seguinte'' como se ele, o candidato da oposição, estivesse com isso muito próximo do anátema evangélico que extensivamente, por analogia, atingiria a criação da pílula e até da camisinha ou, quem sabe, ao método Ogino-Knauss e mesmo à negativa da parceira no leito, forma infalível de anticoncepção.

Claro que as tonalidades ideológicas de um partido surgem de grupos muito bem organizados, sejam ambientalistas ou femininistas, que fermentam o debate interno. Visível que, apesar da importância das feministas, elas são, numa perspectiva matemática, de menor peso do que as facções religiosas, sejam os evangélicos ou os católicos, mormente os integristas. E isso é o que pesa especialmente numa circunstância eleitoral. Fica visível para o público que esse posicionamento casuístico não afasta aquilo (ou a intenção ao menos) que constava do programa seja o ''controle social'' da mídia ou o aborto.

Como é pouco honesto o assanhamento do candidato oposicionista em mostrar-se tão ligado a evangélicos como ao time do Palmeiras só para espicaçar a Dilma, faltando apenas atribuir-lhe a frase de que ''nem Cristo evitaria a sua vitória''. Repete-se de certa forma o que houve em 1950 quando um político do PSD, Hugo Borghi, inventou a estória de que o brigadeiro Eduardo Gomes se referira, pejorativamente, a operários como ''marmiteiros''. Os petebistas imediatamente fizeram distintivos com a marmita para colocar mal o candidato que disputava uma eleição plebiscitária como será provavelmente essa que teremos. Estamos na proto-história da democracia. Ainda.

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