LUIZ GERALDO MAZZA
No limiar do confronto
Nunca antes na história deste país um presidente da República assumiu postura partidária como Lula num processo eleitoral. Como no caso clássico do Rei Sol ele vai além de ser o ''Estado'', e mais do que isso a Nação, a essência da opinião pública e, por isso, mesmo quem o contestar será alvo de anátema. Apesar de aureolado com os maiores índices de popularidade, e até por isso mesmo, como se dava com Getúlio Vargas, acha que pode se sobrepor a tudo, das regras éticas à própria lei.
No melhor estilo fascista, conhecido aqui numa escala menor, mobiliza agentes brigadistas, tanto em sindicatos de trabalhadores como em áreas empresariais, para que seja interrompido o livre curso das ideias e informações que tem permitido o amplo conhecimento dos desvios de conduta como os detectados na Casa Civil, tão verdadeiros que não houve como impedir a derrubada da ministra Erenice Guerra, cujo esquema de ação oligárquica permitia amplas operações de tráfico de influência e lobismo.
Percebendo que na escalada em que se davam as informações elas acabariam atingindo a sua candidata Dilma Rousseff, como de fato aconteceu primeiro com os efeitos do sigilo fiscal (no Paraná ela perdeu cinco pontos e na capital nada menos de oito, sendo superada, pelo menos lá, por José Serra) e depois com as nódoas da Casa Civil, desfechou-se a guerra contra o que chamou de terrorismo midiático. Felizmente, nem todos se deixam intoxicar pela propaganda e um forte manifesto de intelectuais, acadêmicos, professores e jornalistas denunciou a existência de um plano para enquadrar os órgãos de comunicação, mais ou menos na linha dos tiranos do momento da América Latina como os da Venezuela, Equador, Bolívia.
Segundo turno, impensável
Embora remotas as possibilidades de um segundo turno, diante da vantagem até aqui mantida por Dilma Rousseff, dá para imaginar o clima político que teremos na hipótese de um segundo turno. O Datafolha do meio da semana indicou, mesmo antes de detalhado, uma oscilação para baixo de cinco pontos da candidata oficial, a maioria dos quais não ajudando José Serra, mas drenando em favor de Marina Silva que parece a beneficiária direta dessas perdas.
Tanto nas eleições que Lula enfrentou com Serra e Geraldo Alckmin houve segundo turno, vencido com relativa facilidade. Todavia agora, diante da torrente de escândalos, isso pareceria o fim do mundo, hipótese inadmissível para os agentes do poder, tal a postura hegemônica adotada e que não admite contestação.
Se até aqui o presidente da República agiu como partidário, dá para imaginar o que viria a fazer, transbordando suas prerrogativas, se houvesse enfim o segundo turno, imaginável se a sangria da candidata continuar e chegar à perda de três a quatro pontos o que viabilizaria essa possibilidade.
Na história brasileira temos mais períodos de exceção do que de democracia e pelo jeito corremos o risco de um recuo institucional em função de outro vício da terra, o culto do homem providencial normalmente travestido com outra das deformidades nossa, a do messianismo. E essa dimensão mítica é invocada a cada novo escândalo revelado.





