Aparelhamento estatal
A primeira tentativa mais articulada de aparelhar o Estado, e de forma ainda primitiva se comparada com a de hoje do PT, foi exatamente nos tempos de João Goulart que era democrata e tolerante, tanto que suportou o corte das suas prerrogativas com a introdução do parlamentarismo e a enfrentou até conseguir restabelecer o presidencialismo. Por sinal que Ney Braga, de outra falange, o apoiou bastante no plebiscito que restabeleceu o regime presidencial. Uma das mais candentes acusações que se faziam a Goulart, e isso era sob o ponto de vista psicossocial da Guerra Fria, matéria-prima de fácil combustão, a de que encaminhava a construção de uma República Sindicalista.
Havia, de fato, essa operação em determinados setores: nos portos, por exemplo, funcionava o Fórum Sindical, que unia todas as representações de trabalhadores e não apenas a dos portuários, tanto que o do nosso litoral comandado pelo bancário Victor Horácio da Costa, a qualquer momento, acionava um dispositivo de greve nos terminais até por solidariedade a outras categorias. Quando da nossa greve dos jornalistas de 1963, que foi sugestão minha numa assembleia unitária com gráficos, fui consultado pelo Victor se era ou não interessante paralisar o porto, o que achei desnecessário, pois essa providência não impediu o fracasso em greve anterior justamente do seu grupo de bancários. Lembro da ingenuidade do Tristão Fernandes, presidente do sindicato bancário, que ficou impressionado com a simpatia de Ney Braga e desativou os piquetes nas agências, o que acabou a parede com a intervenção da Polícia Militar.

Era fichinha
Depois das revelações não apenas no andamento das investigações em torno do chuncho do mensalão (a covardia do PSDB é notória, pois deveria ter ido até às consequências do pedido de impeachment e paga agora com esse culto messiânico a Lula, o que vale uma deserção), mas na trilha dos dossiês e nos casos de uso da Receita Federal, percebe-se que a ocupação do Estado jamais foi tão precisa e articulada como agora. E tudo isso mostra que o aparato da época de Jango era apenas um pouquinho melhor do que a da fase getuliana, em que a cooptação da corporações, bem na esteira do fascismo, atingiam indistintamente empregados e patrões. E era justamente por isso que os críticos do aparato diziam que Getúlio Vargas era o pai dos pobres e a mãe dos ricos. Arquétipo ora retomado por Lula e sua candidata Dilma Rousseff.
Ocorre que uma denúncia dessas em clima de Guerra Fria teria seus efeitos multiplicados em progressão geométrica. Como ao lado disso se tentava mexer com a hierarquia intermediária das Forças Armadas em movimentos de sargentos transbordou, embora a ''insurreição'' proclamada fosse de opereta. Não dá para comparar, por exemplo, o lado ingênuo e evangélico das Ligas Camponesas de Francisco Julião com o organicismo, estruturado no Estado, do MST e da Via Campesina apoiadas por Ongs cooptadas pelo poder.
Estamos em algo que vai além do imaginável e que pode de repente reproduzir aqui essas ações de países de menor complexidade e modernidade como Equador, Bolívia e especialmente a Venezuela com o uso sistemático de plebiscitos e referendos para o exercício da democracia direta e de algo que a história já testou e se mostrou uma ditadura mimetizada com simulacro de democracia.

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