O futuro anteontem
Apesar de todo o triunfalismo que marca a atual etapa da vida brasileira com as evidências de mais emprego, mais salário, mais consumo e da ratificação desse juízo pelas agências de risco e investidores, o Banco Goldman Sachs dá um recado fora totalmente desse esquadro: em 2032, quando o Brasil chegar à condição, aí efetiva, de quinta economia do mundo, PIB de US$ 5,05 trilhões, continuaremos na mesma posição atual, de 47º lugar, em PIB per capita, o mesmo de 2009, mas alcançando US$ 21,11 mil.
Toda a mobilidade social decantada com a classe ''C'' mudando para ''média'' com maior presença no mercado do que a classe ''B'' e ainda o registro do pleno emprego dos fatores de produção na economia (em julho um novo recorde de 182 mil vagas formais, embora menor do que o de 2008, antes da crise, com mais de 200 mil vagas com o emprego no país acumulando saldo de 1.564.606 postos) evidenciaria que não avançaríamos como se acredita na derrubada significativa da desigualdade. Afinal 22 anos, mais de duas décadas, que é o espaço a percorrer até 2032, no rigor das projeções econométricas, estagnaríamos na renda per capita, um indicador forte para perceber como o avanço global é partilhado pelo conjunto da população e de certa forma um referencial, ainda que precário, de distributivismo.

O consolo dos erros
Consola apenas saber que previsões catastróficas anteriores como a de Malthus sobre o descompasso entre a progressão geométrica da população ante a aritmética da produção falharam justamente por se basearem nas condições existentes na realidade do momento posto em análise e desconsiderarem avanços no tempo da ciência e da tecnologia. Assim teria se dado também com as relativas ao ano 2000 pelo Instituto Hudson, Rand Corporation e analistas como Herman Khan que, em relação ao Brasil, se mostraram inócuas e superadas poucos meses depois da publicação do relatório no país.
Há, é claro, uma utilidade em dados sinistros pela circunstância de obrigarem governos e especialistas em buscar superá-los. Como de certa forma ocorre com o tom apocalíptico das previsões ambientalistas com o aquecimento global e outros referenciais sabidamente manipulados.

Um desafio
Para um país que perdeu a perspectiva do planejamento de médio e longo prazos é desafiante um alertamento como esse do Banco Goldman Sachs, especialmente porque vivemos um ciclo de euforia depois da superação, rapidíssima, da crise mundial que nos contaminou, revelar que há um risco sério de engessarmos a mobilidade social por não termos como aperfeiçoar meios de distribuição de renda.
Na verdade persiste, especialmente no Brasil, a dicotomia entre o econômico e o social. Avançamos mais naquele do que neste e essa projeção do Goldman Sachs é de sentido didático. E a campanha eleitoral, embora com os quatro candidatos mais fortes originários da esquerda, certamente tratará o tema da desigualdade com a superficialidade de sempre. Ora a igualdade é a expressão do socialismo e esse é um vocábulo que a inclinação ao centro botou fora de combate tanto que não consta do programa do PT.

mockup