LUIZ GERALDO MAZZA
Tudo por amostragem
Não apenas as pesquisas se ocupam de revelar um cenário pela amostragem. Hoje a própria campanha, por ter privilegiado a televisão e o rádio no chamado palanque eletrônico, também é feita junto a amostras do eleitorado. Isso está presente nas movimentações de Beto Richa e Osmar Dias, tanto na capital quanto no interior, com pequenos grupos de pessoas que tentam expressar o contingente geral.
A pobreza das imagens captadas jamais serviria para uso nos programas gratuitos e, com a proibição dos showmícios, o agito e a animação das massas ficam de fora, a não ser em casos excepcionais como o de ontem de Lula-Dilma em Curitiba porque objetivou a motivação do que ainda resta de militância, já que a maioria esmagadora está empregada e não tem mais a vitalidade antes demonstrada, a acumulação de energia e, consequentemente, a criação de um estado de espírito, se possível triunfalista.
Até o militante, se é que ainda existe, é amostragem. Não há mais espaço para a massa, a multidão densa.
O fim da militância
O voluntariado desapareceu do combate eleitoral. Até nos partidos nanicos há um pragmatismo assustador. Claro que nos radicais como o PSOL e PSTU ainda é possível vê-los em ação e como guardam a dimensão do grupo a que se ligam são amostras. O embate ideológico, degradado ao longo do tempo desde a Queda do Muro, perdeu o sentido, ainda que por vezes forçado entre falsas alternativas como a colocada entre o Estado Provedor, hoje inimaginável, e o Estado Liberal do laissez faire, só viável na teoria.
Outra caricatura é essa em torno do MST tido como caso de polícia ou como movimento social, como se a reforma agrária ainda fosse uma prioridade e não essencialmente algo regressivo, desde que o capitalismo chegou ao campo, como detectaram inclusive autores da chamada esquerda e se busca amparar a agricultura familiar.
O Estado intervencionista, não praticado por Lula, mas presente na doutrina e nas provocações ao adversário, é outra falsidade, embora ele recrudesça nessa história da modelagem exploratória do pré-sal. Quem tem Henrique Meirelles no comando do Banco Central deveria queimar a língua quando se dissesse à esquerda. Há coisas indiscutíveis como a cobertura que o governo brasileiro dá às Farc, pois não há como negá-la. Esses são alguns temas que poderiam fixar posições diferenciadas nos debates eleitorais. A corrupção, visível no caso do mensalão, embora abranja gente de todas as facções, seria outra questão.
Mistificação
Uma das variáveis no comportamento político é sugerir a defesa do Estado como fazia Requião quando só criou problemas para as estatais (na Copel a bravata de que a Usina de Gás de Araucária explodiria, na Sanepar a guerra inócua contra os acionistas do condomínio Dominó) em nome de razões vazias. Outra, essa uma idiotice, a de transformar um populista bufão como Hugo Chávez em paradigma e sugerir que o decalcava nas atuações internas.
E isso se dá por causa da escassa cultura política do brasileiro e a facilidade com que se deixa levar pelos fundamentalismos e as promessas demagógicas do populismo. O culto à sobriedade e à austeridade no Brasil é sempre uma impossibilidade.





