LUIZ GERALDO MAZZA
Conflito que clareia
Quando as chamadas sociedades complexas - e a do Brasil pode sociologicamente ser assim considerada - se consolidam o parto da história não surge da luta de classes, conforme a profecia de Marx, mas em decorrência do nível de conflito que há entre seus vários setores não apenas da economia, mas também no campo da política e da cultura. Ocorre que nossos conflitos, pelo menos como surgem no andamento da campanha eleitoral, são pobres demais para que possam aflorar avanços de ordem civilizatória.
O caso paranaense é clássico: os dois principais candidatos estavam alinhados nas duas eleições anteriores, a estadual e a de Curitiba, e apenas nos descontos, como se fala num jogo de futebol, é que decidiram digladiar pela ação de forças externas e que não conseguiram controlar. A marca de um e de outro é a do oportunismo: Osmar Dias só deixou de disputar a reeleição no Senado porque conseguiu, depois de um jogo de paciência, convencer as forças aliadas aos governos estadual e federal que apostassem todas as fichas justamente nele.
Vale o artificialismo
Como eram aliados e ligadíssimos e agora precisam convencer o público de que muita coisa os separa, há o empenho de marqueteiros e dirigentes partidários atuando justamente nessa direção. E aí sobram os arquétipos clássicos sobre o direito de propriedade, o compromisso de ficar na prefeitura (aliás aí Beto Richa se alinha no paradigma de José Serra que passou o cargo para Kassab no município de São Paulo e o reelegeu e fez-se governador), a ligação com o MST, o dilema entre Estado e iniciativa privada, enfim um tenta ''carimbar'' o outro carregando nas tintas. O artificialismo desse expediente fica visível e acaba despolitizando o pleito e aumentando o ceticismo no público, que todos sabem não ser pequeno.
Obviamente não irão analisar a atuação de um na prefeitura e de outro no Senado, o que realmente daria margem de julgamento ao eleitor, e na melhor das hipóteses teremos um repeteco do fiasco do pleito anterior e que por seu traço plebiscitário tinha tudo para empolgar e que não deixou mínima contribuição ao aprimoramento cívico.
Hora dos programas?
Como Osmar promete expandir os programas sociais (Bolsa Família, Luz Fraterna e vacuidades como o Trator Solidário) e Beto Richa sugere aproximação com os empreiteiros para negociar o pedágio (sinalização também feita pelo governador Orlando Pessuti) não vemos uma só visão de Paraná do futuro, o que um e outro pretendem a longo e médio prazos na inserção provincial na federação. A secura do temário e a sua pobreza visíveis. Esperar também que jorre daí algo próximo de uma visão filosófica em torno do papel que Estado e sociedade podem exercer é demais. É areia demais para o caminhãozinho disponível.
O pior é que no empenho em demonstrar que se diferenciam, e fundamentalmente, apesar de até ontem estarem no mesmo barco, irão, como os fatos já indicam, para os ataques pessoais, ainda à base de sutilezas. Como se vê há formas de terrorismo na despolitização ainda não catalogadas.





