A carência essencial
  Conforme uma das leituras de Aristóteles, a carência essencial do homem seria a falta de asas. Pois na eleição atual, o que praticamente inexiste é um mínimo de pensamento orgânico e a repetição tediosa de arquétipos que são puxados por palavras-chave como ‘‘justiça social’’, ‘‘remissão de excluídos’’ e agora essa miraculosa expressão que quer dizer tudo e também nada, ‘‘sustentabilidade’’.
  A esperança é a de que os temas nacionais e o caráter plebiscitário do pleito maior contamine, nutra, a disputa local com os ajustes que os estafes dos postulantes principais possam estabelecer. A vagueza dos 12 princípios de Osmar é simétrica às generalidades de Beto Richa, essas ainda por cima assentadas na mitologia da cidade-modelo e vulgaridades equivalentes.

Ideias em desfile
  Do ciclo virtuoso da história paranaense – que vai de Manoel Ribas passando por Munhoz da Rocha, o de maior expressão intelectual, até Ney Braga e os que o sucederam e com menor expressão do PMDB e já evidenciando declínio, tivemos momentos marcados por ideias-força como ‘‘Paraná Maior’’ de Lupion, o apelo abstrato de Bento por ‘‘dignificação da função pública’’, ‘‘somos todos uma só força’’ do neysmo e que teve continuidade com ‘‘Paraná, segundo Estado do Brasil’’ de Paulo Pimentel até chegar ao ‘‘o Paraná é um dever, vamos cumpri-lo’’ do estadista Pedro Viriato Parigot de Souza. Nesse slogan um pouco do drama pessoal do governante minado pelo câncer. A austeridade (que irritava a imprensa sequiosa da ração que a sustentava) permitiu o deslanche que viria com Canet Júnior no mais arrojado plano de pavimentação subdimensionada com 5 mil km e que acabou se transformando em modelo para o Banco Mundial.
  Aliás quem melhor conceituou e, consequentemente, praticou o senso de continuidade que deve marcar a sequência das gestões foi Munhoz da Rocha. O falar e o fazer nele eram como um ideograma em que essas peças - a concepção e a realização - caminham juntas, sincrônicas.

Mimetismo tolerável
  Há para quem observe com um pouco de humor a cena político-administrativa um pecado venial, fruto da malícia, quando um governante se apropria das obras do antecessor. Em Curitiba isso virou moda porque a ideologia lernerista se inseriu de tal forma no histórico da cidade, como realização e doutrina, que os que o sucederam se valeram desse acervo ainda que minado de impropriedades como a dos mitos ambientalistas quando a bacia do Rio Iguaçu só perde em poluição para a do Tietê de São Paulo.
  Na fase mais dinâmica do Paraná, a dos fundamentos da infraestrutura, Ney Braga apropriou-se, por exemplo, de obras quase conclusas do seu antecessor Lupion como se deu com a ligação Curitiba-Ponta Grossa com alguns pontos de acabamento, o que é malicioso, mas fator deflagratório da integração com o Norte na direção de Apucarana e posteriormente do Noroeste. Por sinal, que quem montou a subbase de todo o sistema foi Munhoz da Rocha com o Plano executado pelo engenheiro Luis Carlos Tourinho. Continuidade não é continuísmo.

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