A sociedade culpada
Apesar das evidentes manobras de escancarada hipocrisia (não esquecer que ela é a homenagem que o vício presta à virtude) na tal da mobilização contra os escândalos do Legislativo Estadual, fica bem claro que a omissão diante daquilo que já é uma cultura em nosso comportamento envolve a todos. É a sociedade posta diante de um espelho num ato de purgação de culpa. E é claro que tanto o Ministério Público quanto os demais poderes se omitiram no decorrer do tempo, aceitando a normalidade daquelas operações ou não lhes dando a importância devida.
Se olharmos a base familiar dos atores principais, teremos a noção de que vivemos em algo mais parecido com o feudalismo patriarcal do Nordeste, apesar de nossa suposta condição de ''sociedade complexa'', isso é em que a maturidade do processo econômico e social evoluiria por força de conflitos incontornáveis. A hibernação do que deveria ser conflitual é que justifica todo o ocorrido na questão legislativa. Se houvesse o conflito isso que hoje é arrancado a fórceps afloraria naturalmente.
O entrave federalista
Uma das questões mais sérias é justamente a do nosso federalismo que permite lideranças como a de Renan Calheiros em Alagoas e Sarney no Maranhão se apresentarem como luminosas e inspiradas. Pois a nossa evolução econômica também reproduz aqui os cenários feudais referidos. Aquilo que pareceu fácil na remoção de um Haroldo Leon Perez, que nada tinha a ver com a genealogia regional e por aí se facilitou a sua entronização e a derrubada pelo poder militar, jamais ocorreria com as nossas figuras tradicionais. Essas no máximo seriam condenadas ao silêncio obsequioso como se deu com Ney Braga, Pimentel e Acioly Filho.
Se organismos novos, aparentemente incontaminados, como Londrina que derruba por um movimento da sociedade organizada um prefeito como Belinati revela não ter capacidade de acumular energia para evitar a sua volta ao poder como aconteceu, dá para entender a forma como se metabolizaram essas ocorrências que faziam a rotina do nosso Legislativo.
Caso a indignação de boa parte da sociedade se voltasse contra Requião, é de entender-se que as reações seriam parecidas como as que deram cobertura tanto a Sarney como a Renan. Deu para percebê-lo quando o TRE cassou, por unanimidade, o primeiro mandato de Requião no estelionato ''Ferreirinha''.
Assimetria institucional
A ação do Ministério Público melhorou no interior e chegou à capital com as atuações do Gaeco. Mas o bloqueio no centro do poder é muito grande, daí não termos nem no Ministério Público e no Tribunal de Contas estaduais uma atuação como a que entes federais, Procuradoria Geral da República e Tribunal de Contas da União, exercem em seus respectivos patamares. A mecânica institucional é detida pela predominância daquilo que é apropriado à sociedade patriarcal, o parenteralismo e a existência de mediadores interessados. Há um pouco de falácia nessa indignação tardia pela impossibilidade, diante do acúmulo de provas, de tentar qualquer movimento de reversão. É um progresso, mas convém manter a mobilização geral e ampliá-la a outras áreas para daí, sim, quem sabe, entrarmos num ciclo republicano.

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