Retorno ao ufanismo
Há cacoetes que vão e voltam, em ciclos, na vida nacional: um deles, marcante na pretensão de Lula de um protagonismo internacional, é o do ufanismo. E como estamos em cima de uma Copa do Mundo temos que suportar a mediocridade, com aquele tonzinho fascistóide, do apelo ao patriotismo como a impor camisa-de- força no corpo de todos.
Dava até para colocar como fundo musical dos arroubos de opereta de nossa política internacional - queremos botar banca no mundo, meter-se na questão do Irã, enquanto somos de uma subserviência infantil no cenário regional acatando bravatas de populistas - o ''Terra Virgem'' de Vicente Celestino. Nos primeiros versos algo ajustado aos dias da atualidade: ''O meu Brasil para aumentar a sua glória// dia virá em seu futuro ascensional// em que o mundo invejará a sua história// porque serás um paraíso universal!''.
É evidente que com a nossa classificação ao lado de Rússia, Índia e China na constelação dos ''Bric'', como áreas importantes em termos mercadológicos e estratégicos, o que se tornou ainda mais nítido com a crise mundial, passamos a exercer mais influência. Contrasta essa condição com a subserviência com que tratamos vizinhos em nome da cordialidade hemisférica, tal qual se viu em demandas com Argentina na taxação de produtos ou nos conflitos com a Bolívia e Equador, ausência de clareza nas negociações com o Paraguai decorrentes do Acordo de Itaipu, sem falar em papelões como esse mais recente de Honduras, uma comédia pastelão do Itamaraty.
Fogueteiro nuclear
Como não abrimos mão do instrumental da ''sociedade do espetáculo'' fizemos do acordo com Irã e Turquia um oba oba assustador, calculando muito mal as reações que viriam das grandes potências, aquelas que realmente pesam, entre as quais a China e a Rússia que hipoteticamente poderiam exercer papel moderador nas negociações. É claro que todo o mundo vai destacar a boa intenção do Brasil em evitar o isolamento do Irã. A pretensão de figurar como ''banco de reservas'' no Conselho de Segurança é uma das insistentes metas do governo sem muito assento na realidade.
E tratamos questões menores como a da sediação da Copa do Mundo no Brasil e das Olimpíadas no Rio de Janeiro como etapas desse processo de afirmação. Da mesma forma, trataremos a Copa do Mundo da África do Sul como uma variável importante dessa busca. O júbilo - todos se lembram disso - pela vitória nos Jogos Olímpicos era quase tão frenético quanto o mais recente no acordo com Irã e Turquia. Aquilo que parecia um feito redundou num fracasso, como se viu na sequência.
Nosso imaginário nesse campo, embora a tradição da política externa tenha obtido feitos relevantes em passado recente, é alimentado por interpretações exageradas e épicas como a da Conferência de Haia e dos feitos do nosso ator principal Rui Barbosa nem sempre aceitas pelos contendores, mas nutrindo poderosamente nossa autoafirmação, resvalando às vezes na soberba.

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