Silêncio obsequioso
Não foi só o Leonardo Boff que passou por um silêncio obsequioso por suas pregações da Teologia da Libertação por ordem da Inquisição repaginada e regida pelo atual Papa quando regente, como o Cardeal Ratzinger, da Congregação da Defesa da Fé. Muitos de nós passam por isso e às vezes até comunidades inteiras.
Por exemplo, na minha militância tive essa experiência de 1964 até 70 sem conseguir emprego por força de sanções sofridas no Ato Institucional 1 e que foi rompida em primeiro por esta ''Folha'' por uma convocação de João Milanez seguida de outra que partiu de Francisco Cunha Pereira para atuar no Canal 12, no início como analista de futebol e na sequência como editor de telejornal.
Mais recentemente no governo Lerner, por pressão de áulicos sobre a direção da Rádio CBN-Curitiba, fui submetido, aí sim com todos os rituais, a silêncio obsequioso por quatro meses. Felizmente passou.
A vivência pessoal é importante, mas não maior do que a de uma comunidade quase inteira submetida a esse tipo de constrangimento e graças a uma passividade militante não apenas dos meios de comunicação como também das instituições como se houvesse um ajuste pactual, orgânico, que a todos obrigasse. É o que se dava com o problema do Legislativo e não apenas ele, já que alcançava outras esferas do Estado e de poderes que os constituem.

Força tarefa em ação
Engana-se quem pensa que a devassa atual em torno dos escândalos do Poder Legislativo decorreu das denúncias recentes da mídia. Um vazamento de informações, escudadas em sigilo funcional, deu conta da existência de uma força tarefa do Ministério Público Federal e da Polícia Federal que permitiu a identificação das patologias na chamada Operação Gafanhoto alinhando cerca de 80 parlamentares da atual e das legislaturas anteriores em desvios. Esforços mais aprofundados permitiram um conhecimento mais abrangente dessas fraudes e que acabaram levando o Ministério Público a agir através do Gaeco e a afastar diretores burocráticos das suas funções e, inclusive, prendê-los.

Praxe do ilegal
Sabe-se que essas irregularidades eram uma praxe, pela constância, no curso de várias décadas e ficavam protegidas por uma acomodação clânica da chamada sociedade cartorial, usufrutuária dos espaços públicos. Aquilo que se sabia na base do cochicho e da conspiração fofoqueira aflorou e documentalmente como se está vendo. Todo esse sistema de poder paralelo está em clinch. Não será porém
com um sopro que irá a nocaute. Ele ainda detém reservas de resistência, cuja capilaridade mal se imagina.
Tudo o que se fazia era com tal naturalidade que não poucas áreas do poder formal se espantam com a quebra ''contratual'' deturpando o sentido original que Jean Jacques Rousseau lhe atribuia. Muitos de nós têm votado nos deputados que aí estão, alguns até reeleitos, mas seríamos mais do que levianos se voltásemos a sufragá-los depois de tudo isso sem que deixassem bem claro que nada tem a ver por ação ou omissão com o ocorrido. É o mínimo para romper com o silêncio obsequioso da maioria.

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