LUIZ GERALDO MAZZA
A revolução já era
Nos anos 50 e 60 era inimaginável fazer um discurso em assembleia estudantil sem uma referência à revolução, a maior delas sem dúvida, a de Cuba. Depois da queda do muro esse papo perdeu validade e hoje o terrorismo, na nova Guerra Fria do cenário pós-Consenso de Washington, é o fator preponderante em torno do qual se criarão as mesmas paranoias adotadas contra subversivos, de um modo geral, de 1964 em diante no Brasil. Foi com a ideia da revolução que muitos dos jovens brasileiros acabaram mortos, desaparecidos e torturados porque era indispensável um mínimo de utopia para fundamentar a resistência.
Claro que há remanescentes desse sonho-delírio como se vê em certas palavras de ordem em apoio ao que chamam de revolução agrária que, de revolução, nada tem ainda que com algum sinal gramsciano. Isso é a apropriação do aparelho de Estado para sustentar a suposta sublevação, tolerada pelas autoridades, que tem todas as características de uma gincana chapa branca, nutrida por Ongs e com vastos recursos públicos.
O novo crash
Se em 1929 com a quebra da Bolsa e a subsequente recessão norte-americana, só aliviada com o envolvimento no esforço de guerra contra o Eixo, tivemos algo que parecia ao ver dos teóricos, especialmente marxistas, uma evidência de crise cíclica do capitalismo. A mais recente, de caráter bem mais abrangente e com sequelas ainda não removidas, também fez aflorar a convicção de que estariam gestados os fundamentos para mais intervenção estatal, mais força para o keynesianismo olhado como salvação. É evidente que a consciência de que é indispensável dar um breque nessa folga da especulação financeira, submetê-la a alguma regulação, acabou se impondo, enquanto, de outro lado, a defesa da liberdade sem freios perdeu argumentos, anulou-se.
Na realidade as deformações nada têm a ver com o liberalismo, mas com uma das suas perversões que Norberto Bobbio chamava de liberal-liberismo, a prática de algo como o que pretendiam os fisiocratas de Quesnay, aquela do laissez faire, laissez passer.
O fato é que a intervenção do Estado, tão abominada como doutrina, se tornou inevitável para salvar bancos, outros agentes financeiros e montadoras da quebra. No Brasil, embora todos os feitos da macroeconomia (estabilidade, maior emprego de fatores de produção, crescimento significativo de áreas antes condenadas à pobreza) terem se fundado numa visão liberal aumentou e muito, agora com a campanha eleitoral, a defesa de mais estatismo e isso dito pelos dois candidatos que polarizam as pesquisas.
Alegoria das gangues
Como os partidos de origem revolucionária andam muito acomodados até para ter um quinhão de poder em cargos públicos o sinal mais forte de insurreição é além do crime organizado, que compete com o Estado e em muitos aspectos leva vantagem, a operação das gangues juvenís. Em Curitiba elas tentam assumir a roupagem da guerrilha com os comandos zona norte e zona sul: briga por espaços e ações que vão da pichação nos prédios à proclamação convocatória usando como referencial as Farcs colombianas. É alegoria quase carnavalesca, todavia, de qualquer forma, perturbadora. Revolucionariamente mais fortes dos que assim se proclamam nos partidos, estes anos luz do crime organizado.





