LUIZ GERALDO MAZZA
Tudo à esquerda
Os quatro principais candidatos presidenciais são da esquerda: Dilma, Serra, Ciro e Marina. Ainda que só esta, por seu histórico de coerência, represente a perspectiva de uma utopia, valor fungível no pragmatismo asfixiante em que vivemos, não temos a representação clássica do conservadorismo já que todos, sem exceção, têm posições ao gosto da moda, tidas como progressistas.
No Chile, que sob o ponto de vista civilizatório é bem mais avançado do que o Brasil, foi possível à direita retornar ao poder depois de longo predomínio da ''concertação''. Diria-se que aquela é um direita semelhante à europeia, aliás dominante, depois de vitórias da ''abertura à sinistra'' tanto na Itália quanto na França.
Aqui, dado o atraso das nossas práticas políticas, cada vez mais confundindo populismo com esquerda, a direita é anatematizada como expressão do mal. Na verdade, ao menos pelos vínculos com a Frente Parlamentar Nacionalista dos anos 50 e 60, José Sarney que chegou à Presidência era ''progressista'', logo ele a expressão do feudalismo como tantos outros. O hibridismo criado naqueles anos - e me lembro do jornal porta-voz ''O Semanário'' de toda a doutrina do chamado ''nacionalismo à esquerda'' - indicava que Sarney, junto com Seixas Dória, esse mais palatável, integravam a ''bossa nova'' da UDN, expressão de uma direita civilizada, como reserva minoritária.
Vice-presidencialismo
O cientista político Luiz Felipe de Alencastro, professor da Sorbonne, em recente avaliação, entende que se a dobradinha Dilma Rousseff-Michel Temer for vitoriosa haverá um desequilíbrio em favor do PMDB de forte e aguda vocação, como sabemos, fisiológica no sentido de compartilhar o poder. Se hoje com todo o poder ''eleitoral'' de Lula ocupa um latifúndio nos ministérios e recebe ainda a ''cobertura'' presidencial para as vulnerabilidades de Sarney como já havia acontecido com Renan Calheiros dá para imaginar o que ocorrerá com a reacomodação partidária se a chapa branca for vitoriosa e a dependência que terá do vice presidente.
Uma das causas da pouca importância que deram a Requião como postulante da candidatura própria no PMDB está menos na falta de credibilidade do nosso ex- governador do que na certeza de que a opção feita assegura maiores espaços ao partido.
Conflitos de Serra
Também Alencastro vê uma dificuldade essencial para José Serra em tentar definir um programa de ação, inclusive no que diz respeito a uma maior presença estatal e poder de intervenção, que o diferencie das conquistas inegáveis do lulismo por ter seguido em parte, ao menos no que diz respeito à estabilidade, algumas das práticas de FHC. Hoje a ''elite'' financeira confia mais em Lula do que em Serra, já que este faz notórias restrições à política econômica, especialmente, na questão cambial. Considerando todos esses fatores percebe-se que há falta, no espectro político, da expressão à direita, posto que aparentemente os que a representam já estão no poder em partidos como o PP e o PTB. O mimetismo é apropriado: o PSD, social democrata, de Getúlio não difere em muito do PDS dos milicos. Só tivemos um PC forte em 1947.





