LUIZ GERALDO MAZZA
Força das alegorias
Embora já decadente, por força da urbanização, o ato de malhar Judas era algo que precedia os festejos da Páscoa com a intensidade do folclore e dos autos populares. Marcado pela irreverência fazia-se uma espécie de justiça popular, sempre divertida, de figuras da comunidade que iam do açougueiro que cobrava caro ao vereador desatento e até ao presidente ou o prefeito. Quanto maior a censura a essas expansões, como se deu na ditadura de Vargas e na Redentora, maior o empenho dos participantes.
Como o jogo de bolinhas de gude, o ''bafo'' das coleções de figurinhas (do Zequinha clássico aos albuns das Copas do Mundo na troca de craques), a amarelinha, o passa-anel também a celebração de malhar Judas perdeu sentido nas cidades de médio porte em diante. É claro que se pudéssemos voltar no tempo os episódios do legislativo paranaense predominariam sobre as também condenáveis patologias do Executivo e do Judiciário.
Viria em bom momento depois das fracassadas manifestações estudantis que serviriam, por sua fragilidade, de nutriente para os infratores. É outra face lamentável dos dias atuais: a cooptação das entidades que os representam os transformaram em militantes chapas brancas, ministerialistas, como se dava, aliás, em 1964, com a Une tão engajada como agora no poder.
Iconografia rica
Tanto quanto as festas juninas, essas celebrações foram alvo de documento pictórico em artistas como Heitor dos Prazeres e a nossa Maria Nicolas que focaram com lirismo esses ''justiçamentos'' que foram se tornando de risco à medida em que as cidades se transformavam em megalópoles, primeiro transferindo a festa aos bairros distantes e depois simplesmente anulando-a.
Como a ingenuidade tende a sumir dos nossos hábitos e hoje é mais fácil fazer um linchamento de políticos pela mídia, como tem ocorrido com razoável frequência, do que remontar o cenário desses folguedos juvenis o fato é que ainda há alguns resistentes na celebração. Como estamos em transição de poder e pega fogo o questionamento das delinquências do legislativo tudo isso também dificulta a apropriação de cenas da nossa realidade para a malhação alegre e lírica das ruas. Uma das coisas que atrapalha bastante é o baixo nível de informação da população que lê muito pouco e o que mais capta vem justamente da televisão e do rádio e agora, em crescente interesse, na internet.
Foguetório de saída/entrada
O governador Requião ficou tanto tempo no comando do governo (nada menos de três exercícios, recorde absoluto) que era de esperar-se um foguetório por parte dos seus adversários tal qual se deu quando Manoel Ribas caiu no Palácio São Francisco face a derrota da ditadura Vargas. Havia tanta gente querendo despedir-se de Requião, mas garantir-se com o seu substituto, Orlando Pessuti, que não dava para distinguir o que era de apoio ou de hostilidade. Não pegaria bem vaia porque ninguém em nossa história as acumulou como Roberto Requião de Mello e Silva, a mais recente em Toledo e a mais forte aquela no Teatro Guaíra testemunhada pelo seu líder bolivariano, Hugo Chavez. Aliás nada mais próprio à política do que a traição quase sempre por mais de 30 dinheiros.





