Nem Lear, nem Timon




A carreira de Roberto Requião, em seu programado final, não aponta para um final épico dos shakespeareanos Rei Lear e Timon de Atenas, mas certamente fica distante de um Macbeth, onde os personagens se esvaem em sangue e nunca, de forma alguma, em vaias. Passou para trás muitos dos que lhe foram essenciais como se deu com José Richa, que o carregou às costas para elegê-lo prefeito de Curitiba em 1985 contra o mítico Jaime Lerner, e também com Alvaro Dias, que se manteve no Executivo sacrificando eleição para o Senado para, de certa forma, assegurar-lhe a vitória, inclusive se comprometendo com a farsa do Ferreirinha. Como também fez o mesmo com Lula, cujo apoio foi decisivo nas duas últimas eleições, o que jamais o impediu de atacá-lo nem sempre de forma minimamente justa.

Outono do patriarca


Da vaia na Refinaria de Araucária à havida recentemente no campus de Toledo da Unioeste vai colecionando hostilidades e mostrando que ele as alimenta quase compulsivamente nos seus exercícios de ironia. Se leva as vantagens decorrentes do estilo na prática de intimidação que não se torna mais leve com saídas de humor, há de entender também que o reverso disso é quase automático na explosão dos que não toleram abusos.

É hora de pensar no fecho de carreira, com sua eleição para o Senado e de uma forma o quanto possível construtiva, valendo-se dos oito anos na Câmara Alta para ao lado das guerras cotidianas, indispensáveis ao seu jeito, para tentar dizer o que fez em três períodos de gestão. Agora, porém, de uma forma orgânica, articulada e capaz de operar como recomposição histórica e exegese da sua doutrina e ação.

Ocorre que à primeira vista essa avaliação nada tem de positiva mormente num Estado que se habituou a ciclos meritórios como o de Ney Braga-Paulo Pimentel até chegar em Canet Júnior, outro momento de apogeu. À primeira vista o Paraná teria perdido posições relativas tanto em nível nacional como no regional. No Sul maravilha os dados macroeconômicos e sociais nos colocam em posição ruim diante de Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Um biógrafo urgente

Preve-se que com a sua acomodação no Senado não deve abrir mão do estilo beligerante tanto nas escaramuças nacionais como nas locais. Também de manter o uso da intimidação como forma de dissuadir eventuais adversários e obviamente sustentar a crítica veemente a quem ocupar o poder estadual que certamente estará entre Beto Richa e Osmar Dias, alvos permanentes de suas diatribes. Todo governante que se preza tem alguém ao seu lado capaz de operar como preceptor e de interpretar, de uma forma abrangente, seus mínimos gestos para colocá-lo em posição de razoável à boa no panteão dos heróis. Se isso vier de servos, ainda que intelectualizados, ou de áulicos e integrantes da claque, terá sempre a presunção da desconfiança e da manipulação. Daí a relevância de que o próprio autor fale da obra, exercício em que tanto se empenhou ao longo do tempo inclusive acreditando que mudava o rumo da própria humanidade.

mockup