Clichês prévios


Se na história há uma espécie de arquétipos que tentam ajustá-la a uma visão desejada por ideólogos isso é inevitável na política. Um sucesso literário no momento é o ''Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil'', do curitibano Leandro Narloch, que já esteve no ranking dos mais vendidos por nove semanas e que entre outros feitos busca desmistificar esse tipo de aparelhamento na repetição, por exemplo, da relação entre colonizador e colonizado com uma visão que faz do colonizado uma vítima e o colonizador sempre um canalha a serviço do imperialismo.

Aliás um motivo de orgulho para a cultura paranaense é o fato de o livro de Laurentino Gomes, maringaense, ''1808'', ter figurado na mesma listagem por nada menos de 117 vezes. Para um povo que se insiste em fixar, haja clichês, como sem identidade, é uma vigorosa mostra de resistência como temos tantas outras. Inclusive a representada pelo chargista Glauco, um dos maiores nomes nacionais da área, também paranaense, vítima, juntamente com o filho, da violência paulista, mortos anteontem.

Caça aos arquétipos


Voltemos aos estereótipos: um deles nos aponta como vítimas da autofagia e certamente muitos dirão que essa ''verdade'' se impõe nesse atrito entre o governador Roberto Requião e o ministro paranaense Paulo Bernardo. Esse tipo de manifestação é comum em Requião e se destaca pelo tom seletivo. Antes quem mais sofria ataques era justamente o presidente Lula, apesar de por duas vezes ter garantido, em segundo turno, a vitória eleitoral do paranaense. Isso nada tem de autofágico já que se trata de uma especificidade de estilo de Requião: fez isso contra José Richa e o filho Beto Richa, Alvaro e Osmar Dias e de forma especial o ex-governador Jaime Lerner, inegavelmente o paranaense de maior expressão internacional e nada pela política, tudo pela profissão, o que deve irritar sobremaneira quem não tem tais credenciais.

Outra ligeireza intelectualizada (há até doutrina disponível a respeito) é a que nos fixa como introspectivos e tímidos como se fosse possível num quadro de ampla diversidade como o nosso captar tal tonalidade no paranaense médio. Que também não é o Homem Nu da Praça 19 de Dezembro e que o mestre Raul Gomes, inconformado com as linhas antropomórficas, chamou de ''obcenonstruosidade''.

Criemos outros


Como na política especialmente há sinais de extrema acomodação, que parecem negar rigorosamente os conflitos, quando vemos os aliados da eleição municipal de Curitiba em choque aberto num quadro permeável a composições mais absurdas, poderia-se sugerir que os níveis de despolitização aqui chegaram ao extremo. Poucos têm tido habilidade para fazer sucessores: Ney o conseguiu com Pimentel em 1965, mas foi substituído por outro militar, esse do PTB, na prefeitura da capital, o general Iberê de Mattos. Dizer-se, por exemplo, que não temos o mínimo sinal de renovação seria verdade se não confrontássemos o fato com os demais estados-membros e especialmente a sucessão nacional. Nessa direção e à base de uma exegese de encomenda poderemos engendrar novos estereótipos. Até a nossa diversidade cultural favorece.

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