A Igreja e o social


No Brasil, a Igreja foi uma corrente ideológica relevante no processo político e que operou muito além daquelas siglas, como até hoje há muitas, que se nominam como comprometidas com alguns dos matizes do cristianismo. Perderam-se em função dos inevitáveis arranjos. A que ganhou mais expressão foi o PDC num momento em que se tentava até a ''internacionalização'' da democracia cristã e na qual tanto Ney Braga como José Richa foram lideranças relevantes, este até com o comando da Juventude Democrata Cristã internacional.

Quando da ''abertura à esquerda'' na Itália também os democrata-cristãos do Paraná nela se engajaram. Mas o relevante não é o episódio que responde a determinadas circunstâncias e sim aquilo que busca um sentido de permanência.
Muitas correntes, antes da ''Teologia da Libertação'', buscaram uma ponte entre os fundamentos da crença e uma ação social próxima até do socialismo como a ordem dos ''padres operários'' e a do Movimento Economia e Humanismo do padre Lebret que inspirou estruturas organizacionais do Paraná, São Paulo e outras unidades brasileiras.

O bem comum


Infelizmente para efeito de proselitismo não se foge das simplificações tipo ''justiça social'', tão decantada e dissimulada, ou o ''bem comum'' expressão repetida como se tivesse um alcance ilimitado, tal qual se faz hoje com o saque do ''desenvolvimento sustentado'' que pode dizer tudo e também nada no empenho em progredir com um mínimo de agressão ao ambiente, dicotomia, de certa forma incontornável, pólos de uma tensão dialética.

Essa questão está na temática da Campanha da Fraternidade 2010 com foco na economia numa perspectiva de solidariedade, como se dava na pregação de Lebret com o seu ''solidarismo cristão'' assentado em estudos de campo, pesquisas, diagnósticos e propostas de correção. Nenhum tema escapava aos seus argutos técnicos e doutrinadores, tanto que essa contribuição aparece, numerosas vezes, nos programas da Comissão Interestadual da Bacia do Paraná-Uruguai, CIBPU, no estudo das bacias hidrográficas e na organização das cidades, aí incluídos planos diretores.

A racionalidade do lebretismo conflita com a inclinação brasileira para o sentimentalismo, a pieguice, o melodrama, a piedade e a comiseração postos como fatores de estancamento da brutalidade sistêmica do capitalismo.

O hedonismo


Nunca o hedonismo, a busca do prazer, foi tão forte como nos tempos atuais, ainda que tenha sido marca de épocas anteriores como a do filósofo Epicuro que a adotava como aperfeiçoamento moral: satisfação obtida na prática da virtude. Na economia o hedonismo é presente no consumismo, na busca desenfreada de bens materiais, o carro novo e o parceiro novo, o fruir da vida mundana. Há um espaço muito reduzido para as manifestações de desapego. É como o valor castidade posto aos jovens como regra de convivência. Difícil colocar qualquer valor espiritual numa ordem satanizada sem que haja mártires. E o martírio não é bem um sinal dos nossos dias. Mas existe, como há castidade e vida frugal e até a pobreza franciscana em escala reduzidíssima.

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