LUIZ GERALDO MAZZA
Filosofia na madrugada
Na passagem do segundo para o terceiro grau (até porque no colegial havia a cadeira de filosofia entregue aos mestres Albano Woiski e Zavadski) discutíamos questões como livre arbítrio, determinismo, precedência da necessidade sobre a vontade, essência-existência, enfim, a aventura humana, condicionantes e seu potencial tido como sub-aproveitado. Obviamente predominavam as tinturas do marxismo, existencialismo, freudianismo e do cristianismo mais doutrinal como o de Gabriel Marcel, Jacques Maritain e especialmente dos dominicanos, esses colocados mais à esquerda do espectro.
'Aquecimento'
Esses debates na rua e nos cafés da cidade iriam dar consistência a discursos nas assembléias do diretório acadêmico e nas nossas declarações de princípios dos congressos da União Paranaense de Estudantes, documentos que lembram muito as normas dos direitos humanos do governo Lula, um repositório de intenções nem sempre ajustáveis ao tempo e às circunstâncias e àquela época nutridos fortemente pela guerra fria. Havia incubada nisso a pretensão de mudar a realidade, a história: éramos vetores indispensáveis dessa transformação. Sem nós - haja soberba e arrogância! - nada aconteria, tal e qual na cabeça dos operadores dos direitos humanos, estendendo-os quando lhes é conveniente e estreitando-os quando lembram a pedra de Drummond de Andrade no caminho e é preciso mais removê-la do que versejá-la ou contemplá-la, sentenciada, desde logo, como alienação, escapismo.
O casal Rosemberg
Um dos momentos cruciais foi a campanha internacional, a qual o nosso grupo se engajou, contra a pena de morte aplicada ao casal Rosemberg (Julius e Ethel) acusado de transferir segredos atômicos à URSS. O divisor de águas era radical e a assembléia do centro acadêmico foi alvo de sabotagens como a do corte de luz para evitar o simples envio de um telegrama ao presidente dos Estados Unidos da América do Norte pleiteando a comutação da pena como o Vaticano também o faria. Um dos recursos que copiava a obstrução parlamentar européia - o de colocar vários oradores se ocupando do tema para lançar a decisão madrugada a dentro - era empregado pelas duas bandas. Extenuar pelo cansaço era uma das técnicas como de fato ocorreu com um ''quorum'' reduzido tomando a decisão. Saímos do prédio histórico da Universidade Federal à beira do esgotamento, dispostos, porém, a comemorar num boteco da madrugada. O orvalho intermitente molhava as nossas cabeças e cantávamos a ''Internacional'' como se houvéssemos ganho a guerra e não uma precária, fragílima, batalha. Havia um pouco de autoflagelação em nossa disponibilidade e pretensão heróica. Voluntaristas como tantos, embora mais deterministas com a idéia da inevitabilidade da história e do seu curso depurado em sociedade sem classes e certamente sem angústia, hemorróidas e parasitoses, o nirvana.
A demolição concreta do socialismo realmente existente, Estado policial e com predomínio da nomenklatura (Milovan Djilas expôs a nova classe), não acabou com a idéia de novas formas de luta que hoje porém não podem abrir mão de um compromisso com a democracia (liberalismo) como caminho indispensável para chegar a novos patamares de igualdade (socialismo).





