LUIZ GERALDO MAZZA
Longe da doutrina
Em 1963, Ney Braga formulou seu Plano Trienal, elaborado pela Sociedade de Análises Gráficas e Mecanográficas Aplicadas aos Complexos Sociais, Sagmacs, instituição que punha em prática a doutrina do padre Lebret, dirigente do Movimento de Economia e Humanismo que empolgava a Europa a abria um espaço à esquerda na cristandade como uma terceira via ao socialismo (centrado num Estado policial) e ao capitalismo e suas deformidades. Vinha nutrido pelas encíclicas, dentre elas a ''Mater et Magistra'', e surgia com uma proposta orgânica lastreada em estudos sócioeconômicos e trabalhos de campo. A equipe da Sagmacs era multidisciplinar com técnicos, cientistas e filósofos e me lembro que seu coordenador (deu uma aula magistral na cadeira de Direito do Trabalho em 1954) era o frei Benevenuto de Santa Cruz. Para nós que nos anos 50 sofríamos o bombardeio ideológico da Guerra Fria era um alento sair dos clichês da ''certeza'' revelada tanto do Ocidente como do Oriente e conhecer um caso de ''terceiro caminho'' concreto e não baseado em abstrações mas em indicadores sociais e econômicos extraídos da realidade.
Havia nesses agentes algo parecido com a busca dos que atuam hoje na Pastoral da Criança. Aliás foram fermentações do Concílio com o Papa João XXIII que iriam gerar as comunidades eclesiais de base, obra originária de um cardeal tido como conservador e de direita do Rio de Janeiro, Dom Eugênio.
Ação indutora
Além dos centros religiosos havia uma ação indutora em favor de sindicatos e cooperativas. E tudo isso está no Plano Trienal com metas pré-fixadas com um detalhamento artezanal (até o número de lâminas necessárias para exames de fezes aparece no surpreendente inventário) com atuação no centro e na periferia e decorrente de um diagnóstico que identificava os desequilíbrios visíveis nos posseiros, nos peões de serrarias, nos pescadores. No combate ao analfabetismo era proposto o método Paulo Freire, daí compreender-se, já que meses depois teríamos o golpe militar, a difícil viabilização do processo porque havia uma ideologização indispensável aquela forma de ensino por seu poder de conscientização.
Descompasso insuperável
Se as normas do Plano Sagmacs tivessem sido adotadas certamente o Paraná não estaria tão distante do Rio Grande do Sul e Santa Catarina em IDH, Índice de Desenvolvimento Humano, justamente em desenvolvimento social como mortalidade infantil, expectativa de vida, escolaridade. Uma das buscas do lebretismo era a de sincronizar, o quanto possível, o econômico e o social, impossível na acomodação capitalista (como vemos ainda no Brasil, embora os esforços de Lula com as políticas compensatórias das bolsas família e escola), já que liberais acham que o próprio desenvolvimento econômico garante o atendimento social na presunção de que a escola pública, segundo Dewey a maior invenção do homem para a democracia, assegura a ascensão e a mobilidade. O Estado não era agente contemplativo, mas intervencionista, na concepção de Lebret.





